FILHOS BRILHANTES, ALUNOS FASCINANTES

Augusto Curi



                                   SUMRIO




As razes deste livro                                 9



PARTE A


   1. Bons filhos conhecem o prefcio da histria
      dos seus pais, filhos brilhantes conhecem
      os captulos mais importantes das suas vidas.   15

   2. Bons filhos se preparam para o sucesso,
      filhos brilhantes se preparam para enfrentar
      derrotas e frustraes.                         37

   3. Bons filhos aprendem com seus erros,
      filhos brilhantes aprendem tambm com
      os erros dos outros.                            45

   4. Bons filhos tm sonhos ou disciplina,
      filhos brilhantes tm sonhos e disciplina.      57
PARTE B



 1. Bons alunos aprendem a matemtica
    numrica, alunos fascinantes aprendem
    a matemtica da emoo.                       73

 2. Bons alunos so repetidores de informaes,
    alunos fascinantes so pensadores.            87

 3. Bons alunos escondem certas intenes,
    alunos fascinantes so transparentes.         105

 4. Bons alunos se preparam para receber
    um diploma, alunos fascinantes se
    preparam para a vida.                         119
                                     As razes deste livro


       "Eu discordo! Protesto! Eu enxergo a vida de outro modo! Vamos construir o
mundo de outra maneira!" Frases como essas sempre foram produzidas pela juventude
mundial em muitas pocas da histria. Agora os tempos so outros. A juventude se
calou, se fechou, perdeu sua garra, seus sonhos, a capacidade de discutir, sua f na vida,
sua esperana num mundo melhor.
       Os jovens sempre foram contestadores, sempre discordaram dos erros dos
adultos, sempre lutaram positivamente pelo que pensam. Hoje  raro! Muitos deles
amam o sistema social criado pelos adultos, sistema que os transforma em
consumidores, que sufoca sua identidade e seus projetos.
        a gerao que quer tudo rpido, pronto, sem elaborar, sem batalhas para
conquistar.  a gerao que no sabe unir disciplina com sonhos, que procura usar
processos "mgicos" para lidar com suas frustraes, que tem dificuldade em pensar
antes de reagir. Muitos jovens no tm proteo emocional. Alguns so derrotados por
uma rea do corpo que rejeitam, outros porque as roupas no caem bem e ainda outros
pelas rejeies, cimes, medo da perda, timidez, provas escolares, decepes, crise na
relao com sua namorada ou namorado.
       No livro Pais brilhantes, professores fascinantes, publicado em vrios pases,
falei com os pais, professores, psiclogos, pedagogos, mdicos, sobre o mundo dos
jovens. Fiquei feliz que centenas ou talvez milhares de escolas o tenham adotado.
       Agora, atravs do livro Filhos brilhantes, alunos fascinantes, chegou a vez de
falar no apenas com os adultos, mas principalmente com os pr-adolescentes,
adolescentes e jovens universitrios sobre a mente deles, seus conflitos e desafios. 
diferente do livro anterior. Este livro, devido ao prazer dos jovens pelas aventuras, foi
escrito como uma fico.
       As idias de diversos pensadores, como Freud, Jung, Piaget, Vigotsky, Plato,
Scrates, Agostinho, Paulo Freire e outros, influenciaram a construo deste livro.
Talvez em alguns textos voc chore, em outros se encante e ainda em outros, viaje. Na
realidade, eu o escrevi para jovens de nove a noventa anos. Voc vai se surpreender ao
perceber que os filhos brilhantes e os alunos fascinantes no so aqueles que so sempre
bem- comportados, que no falham, no choram ou no tropeam. Mas, aqueles que
aprendem a desenvolver conscincia crtica, decidir seus caminhos, trabalhar seus erros,
construir tolerncia, reconhecer suas dificuldades. So os que choram, sim, quando
necessrio. E por que no? So os que constroem grandes sonhos e lutam pela
concretizao desses sonhos. E, acima de tudo, so os que do uma nova chance para si
mesmos e para os outros quando fracassam.
       Voc ver histrias de jovens e adultos que foram feridos pela vida, rejeitados
socialmente, desacreditados, portadores de conflitos, mas conseguiram encontrar fora
na fragilidade e dignidade na dor. Eu mesmo tive de experimentar uma amarga
experincia enquanto escrevia este livro. Permita-me cont-la para dar mais sabor ao
contedo desta obra.
       Antes disso, quero dizer que para mim o culto  celebridade  uma imaturidade
da inteligncia, pois cada ser humano, rico ou pobre, intelectual ou inculto, judeu ou
rabe, artista ou espectador,  igualmente importante.
       Certa vez, um jornalista fez uma matria agressiva e completamente injusta
sobre mim num rgo de imprensa que tenho em alta conta. Em vez de fazer crtica
literria, ele usou um linguajar que destilava raiva e sarcasmo. No sei qual a raiz desse
dio, s sei que desrespeitou no apenas a mim, mas milhes de meus estimados
leitores de todos os nveis culturais que sabem escolher o que lem, dentre os quais
inmeros    mdicos,   psiclogos,   socilogos,   bilogos,   professores,   pedagogos,
advogados, juzes de direito e cientistas que usam meus textos em vrios pases.
       Devemos sempre criticar as idias dos outros, mas nunca viol-las, pois no
somos proprietrios da verdade, no somos deuses. Como freqentemente digo na teoria
da Inteligncia Multifocal, do ponto de vista filosfico a verdade  um fim inatingvel.
       A cada dez anos muitas verdades cientficas caem no descrdito, perdem seu
valor. O conhecimento  produzido num processo sem fim. O conhecimento
considerado absurdo hoje poder ser supervalorizado amanh. Isso sempre ocorreu na
histria da cincia e da cultura. Por isso, a democracia das idias  uma necessidade
inevitvel. No  possvel viver em liberdade sem respeitar os que pensam diferente de
ns.
       O jornalista entrevistou-me porque disse que era o autor brasileiro mais lido no
pas atualmente (poca do lanamento deste livro), com mais de um milho e duzentos
mil livros vendidos, no ltimo ano. No entendo por que tenho tantos leitores, no
mereo esse sucesso. No tenho uma equipe de marketing, nem assessor de imprensa e
moro longe dos grandes centros. Alm disso, no tenho muito prazer de dar entrevistas,
pois no sou celebridade e nunca serei. Sou apenas um psiquiatra e um simples
pensador que procura ansiosamente entender o complexo teatro da mente humana.
       Freqentemente pergunto-me: como entramos na memria em milsimos de
segundos e encontramos os endereos dos verbos, pronomes, substantivos, que
constroem as cadeias de pensamentos? Cada ser humano, ao produzir um pensamento,
realiza uma tarefa muito mais complexa do que entrar na cidade de So Paulo de olhos
vendados e encontrar uma determinada pessoa sem saber seu endereo.
       Ricos, miserveis, adultos, crianas, intelectuais, iletrados, enfim, todos ns
somos mais complexos do que imaginamos. H mais de vinte anos analiso o fantstico
processo de construo de pensamentos e cada vez mais me conveno de que quase
nada sei.
       No sou sbio, apenas procuro a sabedoria. Meu sonho  que todos os leitores,
jovens e adultos, procurem a sabedoria e aprendam a escrever os captulos mais
importantes da sua histria nos momentos mais difceis da sua vida. Para mim, a
sabedoria est morrendo num mundo lgico, consumista e imediatista. Por isso, as
sociedades modernas esto se tornando uma indstria de estresse e doenas
psicossomticas.
       Contei essa breve histria para mostrar que tambm atravesso meus desertos
como os personagens que vocs conhecero neste livro. Quero mostrar, em especial aos
jovens, que h perodos em que tudo d certo na vida, recebemos apoios e aplausos. H
outros perodos em que fracassamos, somos rechaados, frustrados e criticados justa ou
injustamente.
       Algumas pessoas jamais nos elogiaro, por mais que faamos um excelente
trabalho, embora devessem pelo menos nos respeitar. Mas se no formos respeitados, o
que fazer? Devolver a agressividade? Jamais! Veremos que os frgeis usam a violncia,
os fortes as idias. Devemos respeitar essas pessoas c pensar como o filsofo Nietzsche
pensou: "Aquilo que no me inata, me torna mais forte". Para mim, as idias so
sementes. O maior favor que se faz a uma semente  enterr-la...
       Cada ser humano, mesmo os alunos que tiram notas baixas na escola, tem um
potencial intelectual enorme para ser explorado. Para explorar esse potencial, devemos
em primeiro lugar aprender a debater o conhecimento e expressar sem medo o que
pensamos e sentimos.
       Em segundo lugar, devemos ter em mente que a grandeza de um ser humano est
na sua humildade, na compreenso das suas limitaes e na capacidade de se fazer
pequeno.
       Em terceiro lugar, precisamos explorar novos caminhos com coragem. Como
sabiamente disse Alexandre Graham Bell, o inventor do telefone: "Se andarmos apenas
por caminhos j traados, chegaremos apenas onde os outros chegaram".
       Em quarto lugar, devemos conhecer que a arte de pensar em filosofia comea
quando comeamos a duvidar e criticar. Devemos aprender a duvidar das nossas falsas
verdades e criticar as promessas polticas, a imprensa, o ensino em sala de aula, os
livros, inclusive meus livros e minhas idias.
       Analisem livremente tudo que lhes disserem e absorvam o que considerarem
til. Assim, no sero servos, mas lderes de si mesmos, verdadeiros pensadores que
transformaro o mundo, pelo menos o seu mundo.  no fogo da dvida e da crtica que
o ser humano adquire sua estrutura.
       Este livro comea com um professor de Beslan, uma escola da Rssia que foi
massacrada por um ataque terrorista. Sofrimentos indecifrveis ocorreram em seu
interior. Usei o drama real de Beslan nesta fico, para que as lgrimas dos pais, dos
professores e dos alunos dessa escola se tornem um memorial inesquecvel.
       Para mim, os professores (incluindo os pedagogos e os psiclogos da educao)
so sacerdotes da inteligncia e, portanto, os profissionais mais importantes da
sociedade, e a escola  o seu lugar mais sagrado.
       Neste livro, um professor da escola de Beslan, depois de se deprimir e desejar
nunca mais pisar em sala de aula devido ao ataque terrorista que presenciou, deu a volta
por cima. Saiu da sua crise, comeou a revolucionar a sua vida e depois alvoroou
outras escolas do mundo. Ele se tornou um especialista em provocar os seus alunos e
faz-los pensar.
       Scrates, o brilhante filsofo grego, provocava a inteligncia dos seus discpulos
atravs da sua fabulosa capacidade de perguntar e duvidar e, desse modo, formou
espetacularmente um grupo de jovens de mentes livres entre os quais Plato, que
aprenderam a amar o debate de idias e que, por fim, influenciaram a humanidade. Os
professores desta fico usaro os princpios de Scrates em sala de aula para abrir a
mente de seus alunos.
       Prepare-se para ser provocado e contagiado pelo professor Romanov. Ele 
incendirio, agitador e super inteligente.  capaz de despertar os alunos alienados e
faz-los sonhadores.  capaz de contagiar os alunos tmidos e faz-los intrpidos,
corajosos.      tambm capaz de instigar professores desanimados e faz-los vendedores
de sonhos que viram de cabea para baixo a sua escola.
       Que neste livro voc possa viver uma grande aventura, passear pelo mundo da
fico e encontrar um personagem importantssimo que est nas entrelinhas desta
histria: voc mesmo!


                                                                          Augusto Cury
       PARTE A



                                           Captulo 1




                                                  Bons filhos conhecem o prefcio
                                                    da histria dos seus pais, filhos
                                                 brilhantes conhecem os captulos
                                                  mais importantes das suas vidas.




       Uma escola em crise


       Havia uma certa escola apelidada de Escola dos Pesadelos. Trabalhar e estudar
nela era um verdadeiro martrio. Os alunos viviam agitados, no se respeitavam,
freqentemente se agrediam. No semestre anterior, um aluno havia ferido outro,
deixando-o paraplgico com uma bala na coluna.
       Muitos professores estavam ansiosos, deprimidos, amedrontados devido ao
clima da escola. Os alunos viviam alienados, ansiosos e irritados. Para muitos, o ltimo
lugar em que queriam estar era dentro da sala de aula. Raramente algum tinha interesse
em aprender. Estudar, assimilar o conhecimento, fazer provas era uma chatice
insuportvel.
       Os conflitos eram to graves que diariamente se chamava o policiamento. A
escola deixou de ser um canteiro de paz e se converteu num canteiro de medo. Nada
parecia mudar o caos dessa escola.
       Certa vez, um professor de fsica, que deu uma nota baixa para trs alunos, foi
ameaado de morte. Temendo pela sua vida, abandonou a escola. Foi o dcimo
professor a desistir de trabalhar na escola no ltimo ano.
       Um novo professor de fsica foi contratado, Romanov. Tinha apenas l,55 m de
altura, era franzino, magro e aparentemente tmido. Ao v-lo, alguns alunos, com um
sorriso sarcstico, pensaram: "Coitado! Esse no dura uma semana. Se o antigo
professor, que tinha 1,90 m e era musculoso, no suportou a ameaa, esse ser
facilmente dominado", imaginavam.
       No primeiro dia de Romanov um grave problema ocorreu. Um aluno agressivo e
autoritrio, apelidado de Gigante, colocou a lixeira da sala ao lado da porta para o
professor tropear. Romanov entrou eufrico, estava animado em se apresentar, nem
olhou para o cho. O pequeno professor jamais sofreu uma queda to feia. Quase
quebrou a perna.
       A classe no conteve o riso, embora alguns tivessem pena do mestre. Romanov
levantou-se serenamente, tirou o p da cala e momentos depois fitou a face de toda a
turma. No disse palavra alguma, mergulhou num profundo silncio. No comeo,
ningum se aquietou. Os minutos se passaram e a platia comeou a ficar incomodada.
       O silncio do novo professor penetrou pouco a pouco na mente dos alunos e os
inquietou. Nunca viram uma reao como essa. Esperavam broncas e sermes, mas
foram inundados por um gritante e perturbador silncio. Quinze minutos depois, todos
estavam calados.




       A grande lio


       Acalmada a platia, Romanov a chocou, soltou uns gritos incompreensveis, que
assustaram a todos os alunos. Aps o choque, ele comeou a fazer movimentos com as
mos, como se fosse um catedrtico em artes marciais. Os olhos dos alunos no
conseguiam acompanhar seus movimentos.
       De repente, o professor virou uma cambalhota no ar. Os alunos, atnitos, no
acreditaram no que viram, o espao parecia to curto para um movimento to fantstico.
Parecia um filme.
       Finalmente entenderam que estavam diante de um grande mestre do karat, um
magnfico faixa preta. Romanov j ganhara inmeras medalhas em muitas competies.
Treinou os alunos a lutar e se dominar, era valente, corajoso e admirado. Mas deixou
tudo para ser um professor.
       E, como professor, queria treinar seus alunos a pensar sobre dois mundos, o
mundo em que esto (o fsico) e o mundo de que so (o psquico). Aps deixar a platia
embasbacada com sua habilidade, bradou com voz poderosa:
       -- Quem colocou o cesto do lixo para que eu tropeasse?
       Gigante se encolheu. Comeou a tremer os lbios. Sua insegurana o denunciou.
Aproximando-se dele, olhou firmemente nos seus olhos e abalou-o:
       -- O poder de um ser humano no est na sua musculatura, mas na sua
inteligncia. Os fracos usam a fora, os fortes usam a sabedoria. Que tipo de fora voc
tem usado? -- perguntou o mestre.
       Gigante no respondeu. O professor perguntou qual era o seu nome. O jovem
falou rapidamente. Perguntou se ele tinha apelido. Ao saber seu apelido, o professor
meneou a cabea e fez uma pergunta para a classe:
       -- Quem agride os outros  fraco ou forte?
       Romanov ensinava atravs da arte da pergunta. A arte da pergunta abria as
janelas da mente dos alunos e os fazia pensar sobre vrios ngulos um mesmo
problema, desenvolvendo reas nobres da inteligncia. Queria que eles pensassem de
maneira ampla e aberta.
       Contrariamente ao que sempre acreditaram, a turma respondeu:
       -- Quem agride  fraco!
       -- Ento aqueles que promovem guerras e atos violentos so fracos. Quem usa a
agressividade e no a sua inteligncia  frgil. -- Em seguida, voltou para a classe e
acrescentou: -- Todavia, para mim o Gigante no  fraco, mas um grande ser humano.
Tenho certeza de que ele tem um excelente potencial intelectual. Ele precisa somente
descobrir esse potencial.
       A platia ficou paralisada com suas palavras. Atnitos, os estudantes se
perguntavam: "Como ele conseguiu elogiar um aluno do qual todos os professores
procuram manter distncia?" E, dirigindo-se ao Gigante, abriu-lhe a mente. Disse-lhe:
       -- Voc me machucou, mas para mim voc no  um problema nem um
inimigo. Saiba que voc no  mais um nmero na classe, mas um ser humano especial.
Se voc me permitir, gostaria de conhec-lo melhor e ter a oportunidade de ser seu
amigo. -- Em seguida, estendeu-lhe a mo.
       O pequeno professor tornou-se grande na personalidade do aluno violento, que
no amava nem respeitava ningum. A imagem de Romanov foi arquivada nos solos do
inconsciente de Gigante de maneira privilegiada.
       A partir da, Gigante, que detestava fsica, passou a curti-la. Quem ama seu
mestre, ama a matria que ele ensina. Quem no ama seu professor, dificilmente amar
suas idias. Romanov acreditava nessa tese.
       Vrios alunos tambm se comoveram com o episdio. Romanov no tinha
apenas conhecimento lgico sobre fsica, ele conhecia o territrio da emoo, por isso
era um professor fascinante, sabia resolver conflitos em sala de aula. Rompeu o ciclo da
agressividade, comeou a surpreender e tratar com gentileza seus agressores.
       A Escola dos Pesadelos comeou a receber os raios solares dos sonhos, o sonho
da sabedoria, da generosidade, da f na vida. A dor se transformou num golpe de amor
no pequeno e infinito mundo de uma sala de aula. Para Romanov, a sala de aula  um
pequeno mundo, porque o espao fsico, embora pequeno,  infinito, pois contm seres
humanos complexos, indecifrveis, verdadeiros universos a se explorar.
       As atitudes incomuns de Romanov se espalharam por toda a escola. No episdio
de Gigante, ningum acreditava que ele se calara e ficara emocionado em sala de aula.
J teve passagem pela polcia, era lder de um grupo que envolvia dezenas de alunos de
outras classes e de outras escolas.
       No comeo, os demais professores comearam a estranhar o comportamento de
Romanov. Uns acharam que ele delirava, outros pensavam que queria ser uma estrela na
escola e ainda outros, que era um heri que estava assinando sua sentena de "morte",
       Cinco vezes murcharam o pneu do seu carro, trs vezes riscaram toda a lataria.
Recebia toda semana telefonemas annimos de alunos ameaando-o. Quase diariamente
escreviam frases agressivas ou zombando com a cara dele nos muros da escola. Alguns
alunos que no o conheciam, o detestavam gratuitamente. No territrio da agressividade
no se aceitava a sensibilidade.
       O tempo passava e, apesar de todos os acidentes da jornada, Romanov
perseverava e continuava incendiando a escola com sua mente afiada. Perturbados, os
professores e alunos se perguntavam: de onde veio esse professor com um sotaque to
carregado? Como ele consegue reagir com inteligncia em situaes que s  possvel
entrar em desespero? Por que quanto mais ameaado mais provoca o raciocnio dos
alunos? Por que fala de sonhos? No  isso careta, ultrapassado? Por que insiste em
fazer uma ponte entre a sua matria e a vida real?
       O professor da escola de Beslan


       Mais tarde, ficou-se sabendo quem era Romanov. O diretor comeou a comentar
a sua verdadeira identidade. Ele foi chamado especialmente para tentar aliviar os graves
problemas da Escola dos Pesadelos. Romanov foi professor da escola de Beslan, na
regio do Cucaso, na Rssia. Essa escola sofreu algo inimaginvel, um ataque
terrorista em setembro de 2004.
       Professores e alunos foram feitos refns. Penetraram no mais profundo vale do
medo. Foram feridos e ameaados. Passaram fome e sede, no era permitido sequer
fazer suas necessidades, como urinar, em locais apropriados. Por fim, a tragdia
aconteceu.
       Com a invaso dos policiais na escola, tentando socorrer os alunos, deflagrou-se
a violncia dos terroristas. Centenas de crianas e adolescentes morreram. Jovens que
brincavam, corriam, sorriam, enfim, estavam iniciando sua histria existencial cheia de
emoes, foram silenciados, fecharam seus olhos. A humanidade parou. Depois dessa
tragdia, as escolas no mundo todo nunca mais foram as mesmas.
       Romanov foi ferido nesse ato terrorista. Recebeu uma bala na perna direita, mas
se curou. Porm uma ferida jamais se fechou: as imagens de jovens inocentes sendo
mutilados sem compaixo pelos adultos. Uma espcie que no cuida dos seus pequenos
no tem como sobreviver.
       Um dos alunos, Pavlov, o mais ansioso e irritado da sua classe, ao desfalecer em
seus braos, disse as ltimas palavras: "Obrigado, professor, por acreditar em mim.
Obrigado por me fazer enxergar que a vida  um espetculo". Nesse momento, seu
corao deixou de pulsar, sua respirao cessou. Romanov soluava inconformado. Aos
gritos, dizia: "O que fizemos com nossas crianas!".
       Por ser muito agitado e alienado, o jovem Pavlov perturbava freqentemente sua
classe. Apesar do tumulto que causava, o professor Romanov sempre pegava em seus
ombros e dizia-lhe: "Aposto que voc ser um grande ser humano. Voc ainda vai
brilhar". O elogio penetrava nos quartos mais escuros da sua personalidade.
       De fato brilhou. Sua ltima frase era o sinal de algum que abriu as janelas da
sua mente e refletia sobre o teatro da vida. Para milhes de pessoas, a vida vale to
pouco. Para uns, uma conta bancria, para outros, uma ideologia poltica, mas para o
jovem Pavlov e Romanov, a vida era um show fascinante que jamais deveria ser
interrompido, a no ser por fatores inevitveis.
       Deprimido, Romanov no conseguia aceitar o drama da escola de Beslan. As
cenas de terroristas sentados sobre bombas, gritando com as crianas e professores
dizendo que iriam mat-los se eles no se aquietassem eram inesquecveis.
Amedrontados, faziam suas necessidades na frente uns dos outros.
       Querendo separar a regio da Chechnia do resto da Rssia, usaram crianas
como objeto de barganha com o governo. Foram colocadas no epicentro de um conflito
que no construram e nem sabiam por que existia. Romanov no conseguia apagar da
sua mente as imagens de cada um dos seus alunos que faleceram.
       Queria abandonar a sala de aula, esquecer tudo o que ocorreu e se dedicar apenas
s artes marciais, mas no conseguia. Queria encontrar um sentido para a sua vida, mas,
atormentado, no conseguia. Queria encontrar um lugar em qualquer parte do mundo
onde os jovens fossem felizes, livres e autores da sua prpria histria. Pensava em se
mudar para esse lugar, mas quanto mais lia sobre o comportamento da juventude, mais
se decepcionava.
       Aos poucos, entendeu que o sistema social dos adultos cometeu crimes
imperdoveis contra os jovens. Entendeu que h um terrorismo psictico que mata a
vida, mas h tambm um terrorismo silencioso em todas as sociedades modernas, que
no destri o corpo, mas esmaga o prazer de viver, a criatividade, a inteligncia crtica e
a identidade das pessoas.
       A juventude era bombardeada diariamente com propagandas para consumir
produtos e no idias. Esse bombardeamento perturbava milhes de pais e professores
no mundo, em especial Romanov. O sistema "gritava", nos comerciais de TV e demais
setores da mdia, que os jovens deviam consumir celulares, tnis, computadores, iPods,
mas no falava, nem timidamente, que eles deviam expandir a conscincia crtica e a
arte de pensar para ser livres dentro de si mesmos.
       O veneno do consumismo criado pelos adultos era to poderoso que os jovens
no o contestavam. Ao contrrio, queriam beb-lo em doses cada vez maiores.
Querendo apenas o prazer imediato, os jovens sufocavam seus projetos de vida. No
sabiam debater idias, filosofar a vida, pensar nos mistrios da existncia. No refletiam
que a vida  belssima, mas brevssima. Por ser to breve, cada momento deveria ser
vivido de maneira solene e sbia. "Mas a sabedoria estava morrendo", detectava
Romanov.
       Na escola de Beslan, os alunos foram refns de terroristas violentos, mas nas
sociedades modernas os jovens eram refns de um sistema agressivo e controlador que
destrua a capacidade de escolha e os valores da vida. Nunca houve tantos jovens
aprisionados no territrio da sua emoo.




       A sala de aula, um campo de batalha


       Certa noite, ao acordar ofegante de madrugada, uma luz acendeu-se no interior
de Romanov. Sentia que no podia fugir da sala de aula. No podia enterrar seu
passado. Teria de transformar seu trauma em adubo para cultivar as flores mais belas do
sentido da vida e da inteligncia.
       Resolveu que o drama da escola de Beslan no seria apagado. Por amor 
juventude e em memria de Pavlov e de todos os seus outros queridos alunos, resolveu
que voltaria para a sala de aula e a transformaria no maior campo de batalha em favor
da vida. Um campo de batalha que no formaria soldados para uma guerra, mas
formaria pensadores apaixonados pela existncia e pela humanidade. Um campo de
batalha em que os alunos no tivessem apenas conhecimento de fsica, matemtica,
qumica, mas no qual aprendessem a lutar pelos seus direitos, contra a discriminao,
consumismo, desigualdades sociais, violncia e toda forma de terrorismo.
       Romanov deixou as competies das artes marciais e se dedicou  fsica e
principalmente em estudar e compreender o desenvolvimento da inteligncia. Brilhou
tanto que comeou a ficar conhecido internacionalmente. Onde havia uma escola com
graves problemas, ele era chamado para provocar uma revoluo na relao entre
professores e alunos.
       Dessa maneira  que foi parar na Escola dos Pesadelos. Por conhecer alguns
fenmenos da construo da inteligncia, ele sempre fazia duas solicitaes  direo.
       Primeiro, pedia que os alunos se sentassem em semicrculo. Enfileirar os alunos
gerava timidez, inibio do raciocnio, bloqueio do debate de idias. Para Romanov,
enfileirar poderia contribuir para a disciplina militar, mas no para formar pensadores.
O instigante professor no queria que seus alunos fossem uma platia de espectadores
passivos. A sala de aula deveria ser um teatro no qual professores e alunos seriam atores
na produo de conhecimento.
       Segundo, pedia que houvesse msica ambiente durante a exposio das aulas, de
preferncia clssica, para que as notas musicais cruzassem com as informaes em sala
e assim melhorasse a concentrao e a assimilao do conhecimento. No comeo, os
alunos queriam msicas agitadas como o rock, mas aos poucos educavam seus ouvidos
e tambm aprendiam a apreciar a msica clssica.
       Terceiro, estimulava a arte da crtica e da dvida contando histrias pelo menos
a cada quinze dias em cada classe. A maioria das histrias era rpida, algumas mais
prolongadas foram aqui descritas.
       Trs meses aps a aplicao dessas tcnicas defendidas por Romanov, os
resultados eram visveis. Ocorria uma diminuio substancial da ansiedade e a melhoria
da concentrao. Os alunos comeavam a ter prazer de ir  escola.
       Em toda escola em que o professor russo iniciava suas atividades, ele se
comportava como um professor comum. Aos poucos, ia contagiando o ambiente. No
gostava de ser estrela, queria fazer os outros brilhar.




       Uma escola precisando da sabedoria


       Romanov no via sentido em bombardear os alunos com informaes sem
aplicar essas informaes para ensin-los a viver. Dar informaes em excesso
estressava os alunos, fazia da memria um depsito pouco til que no estimulava a
inteligncia. Por isso, ele sempre dava lies usando a matria que ensinava.
       Para Romanov, educar era provocar a inteligncia. Certa vez, numa determinada
classe, provocou o raciocnio dos alunos com estas palavras:
       -- No devemos enxergar apenas com os olhos da face, que s captam a luz
exterior, as ondas eletromagnticas. Precisamos tambm enxergar com os olhos do
corao, que captam os pensamentos e as emoes das pessoas. Vocs conseguem
descobrir as riquezas soterradas nas pessoas que os decepcionam? -- perguntou
Romanov, estimulando os alunos a fazer um debate de idias.
       --      duro conviver com pessoas complicadas -- disse rapidamente Elisabete,
uma das alunas da classe.
       -- s vezes, ns  que somos complicados -- brincou Romanov.
       A turma sorriu. Em seguida, o professor aproveitou o momento e pediu que eles
fizessem um exerccio intelectual.
       -- Pense, nesse exato momento, durante apenas um minuto, em algum que o
chateou, o ofendeu, o rejeitou ou o traiu. -- E, para espanto dos seus alunos,
acrescentou: -- Procure enxergar nele algumas qualidades que voc jamais percebeu.
       Alguns alunos expressaram baixinho: "Meus inimigos s tm defeitos". Era
rarssimo ver os alunos dessa escola refletir. Mas o ilustre professor os estimulou a sair
do mundo fsico e mergulhar no mundo psquico. Por incrvel que parea, eles ficaram
pensativos. Passado um minuto, o professor perguntou:
       -- Algum enxergou algo alm da luz exterior? Algum viu uma qualidade em
quem s via erros e falhas? -- perguntou o professor.
       Quase todos levantaram as mos. Viram, pela primeira vez, o invisvel, o
essencial.
       -- Algum quer falar alguma coisa? -- completou.
       A platia ficou emudecida. Entretanto, quando um aluno comeou a falar, os
outros se desinibiram.
       Um aluno disse que passou a odiar um amigo porque ele roubou a sua namorada,
mas sabia que ele tinha pontos bons na sua personalidade, embora nunca tenha aceitado
suas desculpas. Outro, disse que detestava um professor que o chamou de estpido, mas
reconheceu que agiu com desrespeito com esse professor e descobriu que ele tinha
algumas qualidades que no via.
       Marcos se adiantou, respirou fundo e teve a coragem de falar das mgoas que
tinha do seu pai.
       -- Eu no suporto meu pai. S sabe falar gritando comigo. Pega no meu p, vive
tentando me controlar. Ele  engenheiro de estradas. Viaja muito e, quando chega em
casa, no posso fazer nada que ele j me critica. Diz que eu atrapalho a vida dele...
       Nesse momento, Marcos suspirou. Em seguida, continuou:
       -- J pensei em sumir de casa. Eu e meu pai no podemos estar no mesmo
ambiente sem discutir. Todavia, apesar das nossas diferenas, enxerguei nesse um
minuto algo que nunca havia visto. No deve ser fcil a profisso dele. Ele luta para que
possamos sobreviver. Tambm percebi que s vezes ele se esfora em ser legal. Tenta
aproximar-se, fazer programa junto comigo, mas eu sempre me afasto dele.
       A classe percebeu que o professor ficou comovido com a histria de Marcos,
parecia viajar no tempo. Romanov perdeu seu pai com dezessete anos de idade. Teve de
lutar muito para sobreviver, inclusive para superar a saudade. Queria ter tido tempo para
descobri-lo, conhec-lo e am-lo mais. Enxugando as lgrimas com os dedos, ele olhou
fixamente para o jovem Marcos e disse-lhe:
       -- Voc tem o seu pai vivo. Tem o privilgio de se aproximar dele, conhec-lo
interiormente e corrigir as rotas do seu relacionamento. Eu no posso mais, pois perdi o
meu pai to cedo. -- Em seguida, fez uma pergunta que atingiu muitos alunos: --
Quem tem mgoa de seus pais ou suas mes levante as mos? Sejam sinceros.
       Para sua surpresa, mais da metade da classe levantou as mos. Diante disso, fez
mais uma pergunta que perturbou novamente seus alunos.
       -- Quem conhece profundamente seus pais e mes, suas angstias, seus sonhos,
suas aventuras, seus dias mais alegres e mais tristes? -- perguntou Romanov com
profunda sensibilidade.
       Jamais algum lhes havia feito tal pergunta. As palavras de Romanov ecoaram
na alma dos seus alunos. Ningum se arriscou a levantar as mos. Era uma situao
triste. A grande maioria dos jovens no conhecia seus pais.
       Parecia absurdo, mas essa era uma realidade mundial. Respiravam o mesmo ar e
comiam dos mesmos alimentos, mas eram estranhos uns para os outros. Eles
reclamavam das suas mes, criticavam seus pais, apontavam seus erros, mas no os
conheciam.
       Ento, para ilustrar o assunto, o mestre, como sempre gostava de fazer, contou-
lhes uma comovente histria de um filho que, por anos a fio, tinha vergonha das
cicatrizes do seu pai.




       Um heri na cadeira de rodas


       Havia um homem de 38 anos, que tinha enormes cicatrizes no rosto. Seu nome
era Guilherme. Suas cicatrizes eram to salientes que lhe deformavam a face. Em
qualquer ambiente social em que ele entrava as pessoas ficavam chocadas com a sua
aparncia. Alm disso, era paraplgico, andava numa cadeira de rodas. Guilherme era
pai de Rodolfo, um garoto de 14 anos.
       O jovem Rodolfo morria de vergonha que as pessoas vissem o rosto mutilado do
seu pai. O menino cresceu tentando escond-lo. No convidava seus amigos para
freqentar sua casa, no o chamava para participar das reunies e festividades da escola.
O pai percebia as reaes do seu filho e se calava.
       Certa vez, Rodolfo contraiu uma forte gripe e faltou  aula. Nesse dia, um
professor pediu para os alunos fazerem um trabalho em grupo que deveria ser entregue
no dia posterior. Era uma luta contra o relgio. O grupo de Rodolfo, preocupado com a
urgncia do trabalho, apareceu de supeto na casa dele para avis-lo. A me os recebeu
e os introduziu na sala. Em seguida, foi chamar Rodolfo, que estava em seu quarto.
        De repente, apareceu o senhor Guilherme numa cadeira de rodas. Ao olhar a sua
face, os alunos receberam um choque. Em seguida, apareceu Rodolfo, que ficou abalado
ao ver seus colegas com os olhos vidrados na face de seu pai.
        -- No se preocupem, eu sei que sou bonito! -- disse o senhor Guilherme,
bem-humorado, tentando dissipar o espanto do seu filho e de seus colegas.
        Eles sorriram, mas Rodolfo no relaxou. Queria fugir da sala, mas no era
possvel, o drama era inevitvel. Seus colegas perceberam a doura de um homem
mutilado pela vida. Rodolfo estava to acostumado a ver os defeitos exteriores do seu
pai que nunca o enxergara como uma pessoa socivel e cativante. Seus preconceitos
impediam-no de ver a beleza escondida atrs das cicatrizes do seu pai.
        Enquanto faziam o trabalho, os alunos tiveram algumas dvidas. Resolveram
pedir ajuda para o senhor Guilherme, que prontamente os atendeu e os deixou
admirados com sua fantstica cultura. Ele lia mais de um livro por semana. Aps
terminar o trabalho, os colegas de Rodolfo gostaram tanto do seu pai que continuaram
fazendo perguntas a ele. De repente, algum fez uma pergunta fatal.
        -- Por que o senhor est numa cadeira de rodas? Como surgiram essas
cicatrizes?
        Rodolfo ficou vermelho, desejou esconder-se debaixo do sof. Guilherme e sua
esposa guardavam um segredo a esse respeito. Sabiam que um dia teriam de contar a
verdade para Rodolfo. Esperaram que ele crescesse. Ultimamente os pais comentavam
que seu filho j podia saber o segredo, mas no decidiram o momento.
        Diante da pergunta feita por um dos alunos, os pais de Rodolfo se entreolharam.
A me movimentou a cabea e fez um sinal para o senhor Guilherme, estimulando-o a
contar um dos mais importantes captulos da sua histria.
        Com a voz embargada de emoo, o pai comeou a contar uma intrigante
histria:
        -- Meu filho, quando voc tinha dez meses de idade, fomos passear num hotel-
fazenda. O hotel era lindo, todo feito de madeira. Eu e sua me fomos fazer uma longa
caminhada e deixamos uma bab cuidando de voc. De repente, vimos ao longe
labaredas de fogo na direo do hotel.
        Aps uma pausa, o senhor Guilherme continuou:
       -- Apressadamente, fomos ao local e vimos o hotel em chamas. O fogo havia-se
alastrado rapidamente. Procuramos voc e no o achamos. Ao ver a bab sozinha,
entramos em pnico. Ela o havia abandonado para ir  piscina e teve medo de entrar
no hotel para resgat-lo. O tumulto era grande. As estruturas ameaavam desabar.
       Rodolfo estava atnito. Parecia estar vendo a cena.
       -- Desesperado, tentei entrar no hotel. Algumas pessoas me seguraram dizendo
que era loucura, pediram-me para esperar os bombeiros que em breve chegariam. -- E
fitando, Rodolfo, seu pai acrescentou: -- Sua vida era mais importante que a minha.
Poderia morrer, mas lutaria por voc.
       O filho no suportou. Comeou a chorar diante dessa dramtica histria. Nesse
momento, uma colega o abraou. O senhor Guilherme continuou:
       -- O calor era insuportvel. Comecei a tossir muito. Em meio  fumaa e ao
fogo eu felizmente o alcancei. Voc chorava inconsolado. Eu o abracei, o protegi e bati
em retirada. Quando estava para sair do hotel, tropecei num objeto no meio do
caminho. Os bombeiros, que haviam chegado, o resgataram, mas, antes que me
socorressem, uma viga central desabou sobre minhas costas, fraturando minha coluna.
Com a queda, meu rosto tocou em brasas vivas e se queimou.
       O senhor Guilherme parou a narrativa para enxugar suas lgrimas. Em soluos,
ele disse com sensibilidade inigualvel:
       -- Eu sei que as pessoas se espantam com minha face. Mas as cicatrizes que
abalam as pessoas  o sinal do amor intenso que tenho por voc.
       Rodolfo, que havia derramado algumas lgrimas, comeou a chorar em voz alta.
Se antes sentia vergonha do rosto deformado do seu pai, agora estava sentindo vergonha
do seu egosmo. Em prantos, perguntou:
       -- Por que vocs no me contaram essa histria antes?
       -- Eu e sua me resolvemos no lhe contar a verdadeira histria para que voc
nunca achasse que por sua causa eu sou um paraltico e deformado. Queramos que voc
vivesse a vida intensamente e sem traumas. Tinha medo de que voc no voasse alto,
por ter pena de mim. No queria que sua histria fosse amarrada nas minhas limitaes
e em meus sofrimentos. Se eu errei, perdoe-me.
       Rodolfo recordou de todas as vezes que tentava esconder seu pai dos seus
amigos. Ele conhecia suas cicatrizes, mas no o conhecia por dentro. Entendeu que foi
injusto e superficial. Profundamente arrependido, saiu da condio de um filho comum
para ser um filho brilhante. Olhou nos olhos do seu pai e, como se visse o cerne do seu
corao psquico, expressou:
       -- Papai, eu  que peo perdo. Eu no o conhecia, mas agora meus olhos o
vem. Eu tinha vergonha de voc, mas agora vejo que por detrs dessas cicatrizes h um
heri que me amou intensamente e lutou por mim com todas as suas foras -- falou
Rodolfo, num profundo estado de imerso emocional.
       Os seus colegas tambm no contiveram a comoo. Olharam para suas vidas e,
num momento de reflexo, descobriram que conheciam pouco os seus prprios pais.
       Em seguida, o jovem Rodolfo levantou-se e abraou seu pai como nunca o
fizera. Raramente um abrao foi to comovente. Depois desse gesto, fez outro gesto que
seu pai jamais imaginou que fizesse: beijou as suas cicatrizes.
       O pai sabia que o filho o desprezava, mas tinha esperana de que um dia ele
retornaria para seus braos. As imperfeies da face do seu pai, que lhe causavam
averso, tornaram-se a fonte mais excelente de orgulho. Desse modo, tornaram-se
grandes amigos, escreveram uma nova histria.




       Estranhos que moram na mesma casa


       Aps contar essa histria, o professor perguntou:
       -- Vocs conhecem o que est por detrs dos comportamentos de seus pais ou
suas mes? Conhecem as noites de insnia que eles tiveram por vocs? Conhecem os
sofrimentos e as batalhas que eles enfrentaram por causa de vocs? Muitos filhos s
entendero que deveriam ter conhecido, amado e curtido mais seus pais, no dia em que
eles fecharem os olhos para sempre.
       -- Eu perdi tempo -- teve a coragem de dizer Romanov. E acrescentou: -- Eu
era um especialista em apontar falhas do meu pai e da minha me. At que entendi essa
frase que vou escrever na lousa:
       Bons filhos conhecem o prefcio da histria dos seus pais. Filhos brilhantes
vo muito mais longe, conhecem os captulos mais importantes das suas vidas.


       E completou: --Os jovens que trabalham essa caracterstica., em sua
personalidade desenvolvem a arte de ouvir, a arte1 de dialogar, a capacidade de se
colocar no lugar dos outros, de superar conflitos e de desenvolver relaes saudveis e
felizes.
           Os alunos, entendendo o que seu mestre lhes estava querendo dizer,
compreenderam que bons filhos conhecem o comportamento visvel dos seus pais,
filhos brilhantes conhecem suas lutas interiores, suas dificuldades, suas aventuras. Mas
olharam para sua histria e perceberam que no conheciam seus pais.
           O prprio Romanov passou por essa situao. Seu pai era rgido, fechado,
intolerante e superocupado. Vivia para o trabalho e no trabalhava para viver. No tinha
tempo para brincar e praticar esportes com ele. Punia-o por qualquer erro. Tornou-se um
mestre em karat para poder enfrent-lo.
           Um dia, resolveu investigar por que seu pai era to rgido e calado. Descobriu
coisas inimaginveis. Quando jovem, viveu o drama da Segunda Grande Guerra
Mundial. Desvendou que seu pai passou fome, viu amigos sangrando e sofrendo nos
campos de batalha.
           Compreendeu, assim, que "ningum pode dar aquilo que no tem". No era
tolerante, porque fora criado num ambiente em que havia medo, misria, insegurana.
Quando entendeu o sofrimento que seu pai viveu na juventude, ele o perdoou.
           O ilustre professor comentou que filhos brilhantes falham, erram, mas, apesar
dos seus erros, so como garimpeiros que procuram ouro no subsolo da histria de
quem amam. Finalizou essa intrigante aula com estas palavras:
           -- Enxerguem o que est por detrs das cicatrizes dos seus pais, das suas
manias, irritabilidade, impacincia. Cheguem em suas casas e perguntem pelo menos
trs coisas a eles: 1a) quais so seus sonhos mais importantes; 2a) quais foram os dias
mais difceis de suas vidas; 3a) quais foram os momentos mais alegres de suas histrias.
           Na Escola dos Pesadelos os alunos comearam a compreender que a vida  um
grande livro, mas pouco ensina para quem no sabe ler...
       PARTE A



                                           Captulo 2




                                                      Bons filhos se preparam para
                                                     o sucesso, filhos brilhantes se
                                                            preparam para enfrentar
                                                             derrotas e frustraes.




       Romanov influenciou, pouco a pouco, muitos professores, entre os quais Sofia, a
mudar seu estilo de aula. No impunha suas idias, mas as expunha. Sofia era uma
professora de histria, muito enrgica. Aos poucos, comeou a se descontrair em sala de
aula e levar os alunos a enxergar a vida alm dos textos.
       Certa vez uma aluna, Margareth, foi muito mal numa prova de matemtica.
Quando Sofia entrou na sala de aula, viu sua aluna abalada. Sofia suavemente
perguntou-lhe o motivo:
       -- Fui pssima na prova -- disse Margareth desanimada.
       -- No desanime, no deixe sua frustrao dominar voc, domine-a. Faa dos
seus erros uma oportunidade para crescer. Na vida, erra quem no sabe lidar com seus
fracassos.
       -- Eu no consigo. Eu queria ser uma engenheira, mas vou desistir... -- retrucou
Margareth.
       Diante disso, Sofia fez um passeio pela sua matria e resolveu contar uma
histria no final da aula para animar sua aluna frustrada, bem como toda a classe, a
transformar seus invernos em primaveras.
       Um surdo que produziu belssimas msicas


       Um dos gnios da msica, Beethoven, se deliciava ao som do piano. Sua
genialidade musical alava vos como as guias sobre montanhas e penhascos. O jovem
Beethoven no precisava de grandes somas de dinheiro para ser feliz, queria apenas uma
audio finssima e um piano para compor suas msicas.
       Tudo parecia sem atropelos em sua vida. Entretanto, o grande compositor que
voava sobre as mais altas montanhas da criatividade sentiu-se rastejar pelos vales mais
profundos da ansiedade. O que parecia impossvel aconteceu: Beethoven comeou a
ficar surdo. Certa vez, ao pressentir que no distinguia algumas notas, ficou perturbado.
Tentava massagear seus ouvidos para ouvir melhor, mas no havia melhora.
       Procurou ajuda, mas pouco a pouco seus ouvidos entravam num indecifrvel
silncio. Quando seus amigos o chamavam por detrs e ele no os ouvia, entrava em
crise. O mundo desabou sobre o gnio da msica.
       A msica inspirava sua vida, encantava sua emoo, irrigava sua inteligncia e
acalmava sua ansiedade. A perda era irreparvel.  medida que os sons ficavam
distantes, Beethoven se distanciou do prazer de viver. Isolou-se, angustiou-se, abateu-
se.
       Os recursos mdicos ineficazes o levaram a uma profunda crise depressiva. Seus
pensamentos agitaram-se como ondas rebeldes num mar bravio. Sua emoo tornou-se
um cu sem luar, uma manh sem pssaros a cantarolar. O mestre da msica perdeu o
sabor pela existncia. Nada, nem ningum, o animava. Deixar de ouvir msicas e
comp-las era tirar-lhe o cho para caminhar, o ar para respirar. Beethoven, assim,
cogitou em desistir de viver.
       Certa vez, num estado de desespero, ele colocou a cabea sobre o peitoral do
piano e gritou: "No! No  possvel!". Ergueu a cabea e comeou a toc-lo, mas nada
ouvia. De repente, quando a emoo de Beethoven estava asfixiada e parecia no haver
mais esperana, o gnio da msica resolveu virar o jogo e te tornar o gnio da vida.
Determinou deixar de ser vtima dos seus sofrimentos e lutar pelos seus sonhos.
       Algo brilhante aconteceu. No momento em que todos pensavam que seus sonhos
tinham sido sepultados pelo inquietante silncio da surdez, Beethoven decidiu enfrentar
suas limitaes e superar sua condio miservel. Apesar de o mundo ter desabado
sobre ele, escolheu sobreviver. Decidiu no ser escravo da surdez e de seu desnimo,
       -- Muitos deixam de acreditar na vida quando passam por crises emocionais,
sofrem perdas, atravessam dificuldades e desprezos -- disse a professora Sofia para a
atenta platia. E completou: -- Mas, Beethoven, embora controlado por um forte
sentimento de incapacidade, muito maior que o seu, Margareth, procurou superar-se.
Procurou um sentido para a vida. Por incrvel que parea, a coragem e a sensibilidade
dele o levaram a fazer o que ningum jamais havia tentado fazer: compor msicas,
apesar de surdo -- falou enfaticamente a professora. Em seguida, continuou a discorrer
sobre sua histria.
       Os amigos acharam loucura a atitude de Beethoven, fruto de quem est
completamente derrotado e perturbado. "Beethoven deve estar delirando!", alguns
pensavam. Parecia impossvel.
       Um surdo desejar compor msicas  como um cego desejar pintar uma
paisagem. Loucura! Todavia, aconteceu algo inimaginvel. Com uma garra incansvel,
aprendeu a transformar seu caos num ambiente de refinada criatividade. Beethoven
aprendeu a ouvir o inaudvel.
       O mestre da msica colocava os ouvidos sobre os solos e os objetos e ouvia as
vibraes das notas que dedilhava ao piano. No comeo, tudo parecia confuso, no
distinguia as notas. Mas,  medida que treinou seus ouvidos, as vibraes comearam a
estabelecer uma relao com as notas musicais arquivadas em sua mente, que, por sua
vez, abriram os arquivos da sua memria, dirigindo, assim, sua inventividade.
       Desse modo, o inacreditvel comeou a acontecer. Com indescritvel habilidade,
Beethoven comps belssimas msicas apesar da surdez. Foi nesse perodo que ele
comps uma das suas obras mais famosas: a 5a Sinfonia.
       Aps contar essa histria, Sofia olhou atentamente para Margareth e depois para
toda a classe e disse-lhes:
       -- Quando os sonhos nos controlam, os surdos podem ouvir melodias, os cegos
podem ver cores, os derrotados podem encontrar energia para continuar. Quando no
havia solo para caminhar, Beethoven caminhou dentro de si mesmo, no desistiu da
vida, ao contrrio, exaltou-a. Os sonhos venceram. O mundo ganhou.
       Uma sociedade superficial


       Ao terminar sua histria, a professora comentou:
       -- A histria de Beethoven ilustra uma das diferenas entre urna pessoa opaca e
uma pessoa brilhante. Uma pessoa opaca  destruda pela dor, uma pessoa brilhante 
construda pela dor. Infelizmente a maioria das pessoas piora  medida que sofre
derrotas, perdas e decepes. Seu "eu", que representa sua capacidade de fazer escolha,
no amadurece. Elas se tornam mais agressivas, ansiosas, irritadas, desprotegidas,
infelizes. Entretanto, uma minoria se torna mais calma e serena.
       Sofia mostrou que a histria do gnio da msica tem princpios que deveriam ser
observados por todos os alunos. Ele sofreu, se deprimiu, viveu intensa ansiedade,
pensou em desistir de tudo, mas houve um momento em sua vida em que teve de parar
de se lamentar para tornar-se autor da sua histria.
       -- E vocs, sabem virar o jogo ou so especialistas em lamentar-se?
       Os alunos pensaram e perceberam que muitas vezes lamentavam-se. Em
seguida, Sofia disse que o processo de superao de Beethoven foi lento, mas, por
investir nos seus sonhos, ele encontrou liberdade em suas limitaes, fora na sua
fragilidade.
       -- No se coloquem como vtimas da vida. No se posicionem como miserveis
sem sorte e sem apoio das pessoas. Caso contrrio, sero sempre frgeis e inseguros.
Estou perplexa com a fragilidade da gerao Harry Potter -- disse enfaticamente Sofia.
Os alunos engoliram a seco essas palavras. Em seguida, ela acrescentou:
       -- No estou criticando a saga de Harry Potter, estou criticando a falta de
proteo emocional dos jovens que amam a fantasia, mas no sabem lidar com fatos
concretos. Muitos no sabem atravessar crises, pedir desculpas, falar dos seus
sentimentos. Alguns se desesperam quando a namorada os abandona, outros quando um
amigo os deixa e ainda outros quando passam por uma frustrao.
       Margareth respirou profundamente. Percebeu que havia tomado a pior atitude, a
de se sentir uma miservel, incapaz, diante de uma derrota nas provas. Percebeu que
deveria ter uma teimosia saudvel.
       -- Quem lamenta suas perdas, olha para os seus ps, e quem olha para os seus
ps, tem o mundo do tamanho dos seus passos. Vocs precisam levantar a cabea, olhar
para o horizonte e lutar pelo que amam -- completou a professora.
       -- A sociedade nos prepara para o sucesso e no para enfrentar os fracassos,
professora -- disse Joo Paulo, que era um garoto tmido que raramente expressava
suas opinies.
       A professora Sofia ficou entusiasmada com sua participao e seu raciocnio.
Por isso, inspirada em Romanov, a professora concluiu sua histria escrevendo uma
frase na lousa:


       Bons jovens se preparam para o sucesso. Jovens brilhantes se preparam para
as derrotas. Eles sabem que a vida  um contrato de risco e que no h caminhos sem
acidentes. Portanto, tm conscincia de que ningum  digno do pdio se no usar
suas derrotas para conquist-lo.


       Aps escrever essas frases filosficas na lousa, arrematou seu pensamento
dizendo:
       -- Este hbito contribui para desenvolver motivao, ousadia, otimismo,
pacincia, determinao, liderana, capacidade de superar fracassos e principalmente
inteligncia para criar e aproveitar oportunidades. -- E completou: -- Despertem,
queridos alunos! Como Beethoven, lutem pelos seus sonhos. No tenham medo da vida,
tenham medo de no viv-la plenamente.
       Os alunos no aplaudiam os professores. Mas ficaram to envolvidos com o
mundo das idias de Sofia que no se agentaram. Levantaram-se e aplaudiram-na
vigorosamente.
       Enquanto ouviam os sons das suas palmas, os estudantes se interiorizavam e
num golpe de reflexo pensaram: s  digno dos aplausos quem aprender a lidar com
humildade com as vaias que um dia receber. Estavam aprendendo a pensar.
       PARTE A



                                          Captulo 3




                                                               Bons filhos aprendem
                                                                      com seus erros,
                                                         filhos brilhantes aprendem
                                                           com os erros dos outros.




       Paixo virtual
       Certa vez, um jovem amigo de Romanov, Davi, de 25 anos, o procurou para
contar-lhe um problema que o deixava muito inquieto. Disse que estava apaixonado por
uma pessoa que no conhecia.
       -- Como  possvel? -- perguntou Romanov.
       Davi respondeu que estava apaixonado por uma pessoa com quem conversava
pela Internet. Pensava o dia todo nela, mas tinha medo de que ela no se apaixonasse
por ele. Romanov cocou a cabea, franziu a testa, fez um momento de reflexo e
procurou ouvir seu perturbado amigo. Aps ouvi-lo, ele se perguntou; "Ser que meus
alunos tambm esto tendo essa experincia?".
       Na semana seguinte, aps dar sua aula sobre trajetria dos objetos e fora
gravitacional, resolveu falar com os demais alunos de outra trajetria e de outra fora, a
da emoo e, mais especificamente, a fora da paixo. De repente, fez um pedido que
pegou de surpresa os alunos.
       -- Peguem um papel e, sem colocar seus nomes, escrevam se, pela Internet, j se
apaixonaram por algum que nunca conheceram, ou no, se nunca se apaixonaram.
       A turma ficou num estado de euforia. Alguns comearam a pensar, "onde o
professor Romanov quer chegar desta vez?". Em cinco minutos o mestre da vida fez a
apurao. Pensou que entre adolescentes a paixo virtual seria rara. Mas ficou pasmado.
Cinco garotos e quatro garotas j tinham tido uma paixo na Internet. Um jovem
escreveu que teve trs paixes e outro, quatro.
       Perplexo, Romanov explicou que as salas de bate-papo na Internet desinibiram o
ser humano, trouxeram ganhos no processo de comunicao, mas, ao mesmo tempo,
elas se tornaram um ambiente para simular sentimentos.
       Comentou que vrias pessoas disfaram sua verdadeira identidade, quem so, o
que realmente pensam, suas verdadeiras intenes. Conversam muito, mas se calam
sobre si mesmos. Outras, entretanto, mais sensveis, sinceras, e, s vezes, mais carentes,
revelam seus sentimentos sem barreiras e criam fortes vnculos com quem est do outro
lado da tela. Sem os conhecer fisicamente, elas o transformam em seu prncipe virtual
ou sua Cinderela virtual. Vivem uma paixo intensa.
       O professor, procurando estimular a inteligncia dos alunos, disse que na fsica
quntica existe o princpio da incerteza, que demonstra que no  possvel determinar o
espao e o tempo de um objeto simultaneamente, mas apenas um item de cada vez.
Disse ainda que, na teoria da relatividade, espao e tempo so relativos, mas, quando
unidos, so imutveis.
       Aps esse comentrio, falou de um fenmeno complexo da mente humana.
Disse que na psicologia existe o princpio da transformao. Relatou que toda vez que
interpretamos o comportamento de algum ns o transformamos. A interpretao
distorce a realidade. Podemos aumentar, diminuir ou acrescentar algo  realidade do
outro. Os alunos ficaram confusos. Ningum entendeu nada.
       -- Um psicopata pode diminuir o valor das pessoas, control-las, sem jamais
entender que elas so seres humanos complexos, que amam, sonham, tm aspiraes.
Por outro lado, uma pessoa hipersensvel pode supervalorizar as pessoas, gravitar na
rbita delas, atribuir-lhes caractersticas que elas no tm -- disse o inteligente
professor.
       Nesse momento, os alunos comearam a entender como  difcil a construo
das relaes sociais. Em seguida, acrescentou:
       -- Cuidado, estimados alunos. Em alguns casos, a paixo pela Internet pode
tornar-se um amor profundo, no qual existe troca e respeito de um pelo outro. Mas, na
maioria das vezes, essa paixo no evolui, gera grandes decepes e sofrimentos. Em
alguns casos, produz depresso e at idias de suicdio.
       Para Romanov, uma pessoa inteligente precisa quebrar a cara para aprender
lies de vida, mas uma pessoa sbia no precisa freqentemente errar, tropear, falir,
passar por vexames, para aprender lies de vida. Ela observa atentamente os erros dos
outros e aprende com eles.
       Para ilustrar seu pensamento, contou-lhes uma histria para expandir o senso de
observao da turma. A turma, mais uma vez, ficou embasbacada com sua criatividade e
maneira de ensinar. Entraram na trajetria da emoo.




       Um lobo virtual


       Maria Jlia tinha 17 anos. Tinha vrias colegas, mas nenhuma amiga. Acreditava
facilmente nas pessoas, mas no gostava muito de se abrir. No tinha proteo
emocional, qualquer ofensa roubava-lhe a paz.
       Embora fosse uma pessoa bela, como todo ser humano, era uma especialista em
reclamar do seu corpo. No gostava dos seus cabelos, do seu nariz, da sua pequena
barriguinha e principalmente se martirizava porque achava que seus seios eram
pequenos. Gastava uma hora diariamente para se arrumar em frente do espelho e sempre
conseguia ver defeitos que no existiam.
       Raramente se sentia bem com uma roupa. Tinha, portanto, a sndrome PIB,
Padro Inatingvel de Beleza. Sua auto-estima era pssima. Apesar de Maria Jlia no
gostar de conversar ao vivo com as pessoas, amava navegar na Internet. Parecia amiga
de todo mundo.
       Certa vez, conheceu na sala de bate-papo um garoto chamado Ronaldo. Ronaldo
gostava de manipular as meninas com quem conversava. Contava coisas irreais, dizia-se
apaixonado por elas, que nunca havia encontrado algum to afetiva, sensual, amvel.
Tambm alterava a sua idade: tinha 32 anos, mas falava que tinha 22.
       Mentia ainda dizendo que era um milionrio, mas se sentia uma pessoa infeliz.
Na realidade, vivia em crise financeira, detestava trabalhar, zombava da ingenuidade
das pessoas. E como a tela aceita tudo, comentava que precisava da ajuda das garotas
que queria conquistar, Elas se derretiam por ele e ele se divertia. Ronaldo era um
psicopata virtual, algum que no se importava com a dor dos outros nem com as
conseqncias dos seus comportamentos.
       Maria Jlia, no comeo da relao pela Internet, no falava de sua vida
particular. Mas, pouco a pouco, Ronaldo foi envolvendo-a. Passados dois meses, ela
comeou a ach-lo o melhor homem do mundo. Considerava-o o mais incompreendido
dos seres. Eles moravam em estados diferentes. Devido  distncia, trocavam
fotografias. Ele dizia que nunca conheceu algum to linda como ela. Ela ficava
fascinada. Parecia que sua baixssima auto-estima foi resolvida num passe de mgica.
Apaixonou-se por ele. Ficou obcecada. No o tirava da cabea.
       No dia em que no conversava com Ronaldo, entristecia-se e tinha crise de
ansiedade. O vampiro da Internet, aps beber "sangue" emocional das garotas, se
afastava delas. O desespero delas era a glria dele. Maria Jlia, que havia conseguido o
telefone dele, no parava de telefonar. Mentindo, dizia que os seus problemas o
impediam de conversar diariamente com ela.
       A jovem comeou a se deprimir, comeou a ter anorexia nervosa, no se
alimentava direito, no tinha prazer de viver e suas noites eram pssimas. Seus pais
queriam que ela se afastasse da Internet e no telefonasse mais para ele. Mas Ronaldo
tornou-se um deus para Maria Jlia. Ela criou no seu inconsciente a imagem
superdimensionada dele. Tinha certeza de que ele era o homem da sua vida.
       Quando Maria Jlia tentou esquec-lo, Ronaldo apareceu como um predador.
Elogiava-a, dizia que a amava, que ela era inesquecvel. Ela novamente reacendeu sua
paixo e insistia em v-lo fisicamente, mas ele dava mil desculpas. Esse vaivm
comeou a fazer parte desse romance doentio.
       Os atritos com seus pais aumentaram. Ela se afastou dos amigos, que diziam que
"o cara no prestava". Ela s ouvia a voz da sua paixo platnica. Certa vez, pensou em
morrer, tomou uma carteia de comprimidos. Foi levada ao pronto-socorro, sofreu muito,
mas, felizmente, viveu e nem teve seqelas.
       Vendo a gravidade da doena da sua filha, seus pais relaxaram um pouco a
guarda e deixaram-na continuar conversando com ele pela Internet. Ronaldo era usurio
de cocana, alcolatra, teve vrias passagens pela polcia, mas ela no sabia. A tela do
computador  capaz de transformar um lobo num cordeiro.
       O prncipe que nunca existiu


       Meses depois, de tanto ela insistir, ele resolveu aparecer, mas queria v-la a ss.
Finalmente Maria Jlia encontraria "a pessoa mais encantadora do mundo", pensava ela.
Marcaram um encontro numa lanchonete no centro da cidade.
       Ao v-lo, ela correu para os seus braos, mas ele parecia uma pedra de gelo.
Quando ela insistiu em beij-lo, ele virou o rosto. Foi uma decepo atrs da outra.
Ronaldo mascava chiclete com desdm e olhava para o movimento da rua, como se no
se importasse com Maria Jlia. Ela insistia em conversar sobre eles, e ele mostrava
averso a essa conversa.
       Quando ela disse que ele era to diferente do Ronaldo da Internet, ele foi
estpido e secamente disse;
       -- Chega desse papo-furado e vamos logo para o motel.
       Chocada com o desprezo dele e percebendo que durante quase um ano criou a
imagem de uma pessoa que nunca existiu, ela se levantou subitamente e saiu perturbada.
Nos dias que se seguiram, voltou a ter outra crise depressiva. Punia-se muito e se achou
a pessoa mais ingnua da Terra. Comeou a se rejeitar mais ainda, achar-se feia,
desprezvel. Comeou tambm a faltar  escola. Pela primeira vez, ela aceitou procurar
a ajuda de um psicoterapeuta.
       Na terapia, a psicloga ajudou Maria Jlia a ter dignidade, separar a fantasia da
realidade. Encorajou-a a sair da platia e ser a atriz principal da sua histria. Disse que
no deveria deixar nada e ningum control-la, s ela mesma. Comentou que por nada
neste mundo ela poderia vender a sua liberdade.
       Aos poucos, Maria Jlia se reergueu. Deixou de ser "pano de cho" do seu falso
prncipe. Entendeu que o verdadeiro amor traz tranqilidade e prazer e no priso e
angstia. Meses aps essa luta interior, comeou a sentir-se mais livre, aprender a
proteger sua emoo e a superar as zonas de conflito do seu inconsciente.
       O Ronaldo de dentro morrera, o de fora ainda existia, mas no mais a
interessava. Maria Jlia aprendeu uma importantssima lio: deveria ter um caso de
amor consigo mesma, antes de ter um grande amor fora dela.
        Sem razes, o amor vira uma catstrofe emocional


        Aps contar essa histria, o professor Romanov perguntou:
        -- Por que a paixo pela Internet raramente tem razes?
        -- Por que eles no conhecem de fato um ao outro -- respondeu Paulo, que j
tinha sofrido nessa rea, embora no tanto quanto Maria Jlia.
        Sentar em semicrculo estimulava o debate das idias. Alunos que raramente
falavam, comearam a expressar os pensamentos. Alm disso, a msica ambiente
desacelerava os pensamentos dos alunos e melhorava a concentrao e o rendimento
intelectual.
        -- Parabns, Paulo! -- elogiou o professor. -- Quando os internautas
apaixonados saem das telas e entram na vida real, comeam a conviver com os defeitos,
manias e conflitos uns dos outros e surgem crises. Se essa fase no for superada, o que
era belo virtualmente vira uma catstrofe emocional.
        O mestre estimulou seus alunos a que procurassem o amor brando, inteligente,
regado com dilogo e temperado com respeito e cumplicidade. Em seguida, disse:
        -- Todo relacionamento no qual o cime  exagerado, em que um quer controlar
o outro, no cria razes, morre facilmente. Uma pequena dose de cimes  quase
inevitvel e aceitvel, mas uma overdose de cime sufoca a relao, destri
completamente o amor -- disse Romanov, como um mestre no assunto.
        Alguns alunos tiveram n na garganta com essas palavras. Eles controlavam
suas garotas, no davam espao para elas respirar, tinham cime at dos seus colegas.
Entenderam que uma pessoa muito ciumenta no se valoriza,  insegura, vive sempre
com medo de perder. O verdadeiro amor cultiva-se no terreno da liberdade.
        De outro lado, entenderam tambm que todo relacionamento, como o de Maria
Jlia, que  construdo sem transparncia, torna-se artificial e no suporta as mnimas
tempestades da vida.
        Romanov escreveu na lousa:


        Uma pessoa inteligente aprende com os seus erros, uma pessoa sbia vai alm,
aprende com os erros dos outros, pois  uma grande observadora.
       Procurem um grande amor na vida e cultivem-no. Pois, sem amor, a vida se
torna um rio sem nascente, um mar sem ondas, uma histria sem aventura! Mas,
nunca esqueam, em primeiro lugar tenham um caso de amor consigo mesmos.
       Todas essas frases ficavam por mais de uma semana na lousa. Os demais
professores e alunos as copiavam em cartazes e as afixavam nos corredores da escola.
Desse modo, a Escola dos Pesadelos ia, pouco a pouco, se tornando uma escola de
sabedoria.
       -- No campo da afetividade no esperem errar muito para aprender grandes
lies. Falhar nessa rea sempre causa muita dor.
       -- Como voc conhece bem essa rea? -- perguntou Gigante.
       -- Porque fui uma pessoa inteligente, mas no sbia. No observei o erro dos
outros, tive de aprender com os meus. Atravessei crises em meus relacionamentos e,
como ningum me orientou, tive de aprender sozinho, e a duras penas, a velejar no
belssimo e turbulento oceano da emoo.
       Finalizando seu dilogo, o mestre disse:
       -- O mestre dos mestres certa vez disse: amai o prximo como a vs mesmos. Se
no amarem primeiramente a si mesmos, nunca amaro verdadeiramente a algum que
est prximo de vocs. Muitos religiosos tm baixa auto-estima porque se tornaram
carrascos de si mesmos.
       Os alunos aplaudiram. Resolveram aprender a ser navegantes nas complexas
guas da emoo.
          PARTE A



                                           Captulo 4




                                                          Bons filhos tm sonhos ou
                                                          disciplina, filhos brilhantes
                                                             tm sonhos e disciplina.




                                 O mais complexo dos planetas:
                                        a mente humana


          O professor Romanov dava excelentes aulas de fsica. Certa vez, levou os alunos
a compreender as poderosas foras do universo. Revelou a impressionante fora
gravitacional entre os planetas e as estrelas. Comentou que muitas estrelas j foram
destrudas e que a luz que vamos delas eram apenas os traos do seu passado. Disse
ainda que no centro das galxias existiam os fantsticos buracos negros, cuja fora
gravitacional era to grande que sugava e destrua planetas e estrelas inteiros.
          -- No duraramos um milsimo de segundo se estivssemos na proximidade
desses buracos negros -- comentou o professor para um extremamente atento grupo de
alunos.
          Falou que em muitos sistemas as estrelas e planetas se chocavam. Os alunos se
arrepiaram, pois no sabiam disso. Pensaram na catstrofe se a Terra se chocasse com o
Sol. Apenas a aproximao do Sol inviabilizaria a vida na Terra, imaginaram.
       -- Sabe quantas galxias existem no universo? -- perguntou Romanov. A
maioria dos alunos no tinha a menor idia.
       -- Um milho -- arriscou Leonardo, mas achava que estava exagerando.
       -- Muito mais -- disse o professor. -- Na realidade, hoje se sabe que h mais de
cem bilhes de galxias e a cada ano descobre-se um nmero maior. Moramos na Via
Lctea, que  uma das inumerveis galxias do universo.
       -- E sabem quantos planetas e estrelas existem em cada galxia? -- novamente
indagou o professor.
       -- Mais de cem -- disse Jlia. Ela pensou que talvez houvesse apenas alguns
sistemas solares dentro de cada galxia.
       -- Mais de mil -- respondeu Pedro.
       -- Erraram de novo. Em cada galxia h milhes de planetas e estrelas. E
imaginem que a Terra  apenas um desses planetas e o Sol  apenas uma dessas estrelas.
       Os alunos ficaram perplexos. Nunca refletiram que o universo fosse to grande.
Todos faziam uma viagem espacial fantstica. Todos estavam vibrando, exceto uma
aluna: Cludia. Sua cabea estava baixa, seu semblante entristecido. Cludia parecia
estar em outro planeta. E estava. Estava no mais complexo dos planetas, no planeta da
sua mente, viajando nas suas idias perturbadoras. Ultimamente ela estava ansiosa, sem
concentrao e roia as suas unhas.
       Percebendo-a cabisbaixa, Romanov delicadamente perguntou:
       -- Querida Cludia, o que est acontecendo? Voc parece to distante.
       Cludia levantou sua cabea lentamente. Fez um momento solene de silncio.
Em seguida, como j havia aprendido um pouco com Romanov a no ter medo de falar
o que pensa, respondeu:
       -- De que adianta conhecer as foras do universo se no tenho fora para
resolver meus problemas pessoais?
       Romanov ficou chocado com seu raciocnio inteligente e realista. Em seguida,
como se quisesse pr para fora aquilo que a sufocava, Cludia acrescentou:
       -- De que adianta conhecer outros planetas se nesse planeta h tantas misrias
sem soluo? O que me motiva a discutir sobre as imensas galxias que esto a milhes
de anos-luz, se o pequeno espao da minha casa  um mundo opaco, se vejo meu pai
triste, sem emprego fixo, sem condies de sobreviver e, pior ainda, sem esperana?
       Os alunos ficaram abalados com sua resposta. O professor de fsica engoliu a
seco as palavras de Cludia. Ele pensou: "Ela tem razo. Por um lado, conhecer o
universo era importante para as pesquisas cientficas, mas, por outro lado, muitas vezes
a cincia est longe da realidade das pessoas, do mundo real e concreto dos seus
alunos".
       Romanov sabia que a cincia estava gerando gigantes na informao mas
meninos na maturidade emocional, na formao como seres humanos. O sistema
educacional do qual ele fazia parte estava seco, frio, distante, desumanizado.
       No poucos alunos da Escola dos Pesadelos eram financeiramente pobres.
Alguns pais estavam desempregados ou subempregados, outros ganhavam to pouco
que mal conseguiam ganhar para sustentar sua famlia. Algumas mes deixavam de se
alimentar para que seus filhos comessem um pouco melhor. Alguns pais no dormiam
pensando no futuro dos seus filhos.
       As dificuldades dos pais eram to grandes que muitos alunos no tinham
esperana de ter sucesso profissional. Pensavam que repetiriam a histria deles, seriam
humilhados, atravessariam crises financeiras, teriam pouco conforto. Como Cludia,
pensavam: "Se meus pais no tiveram oportunidade! para ter melhor qualidade de vida,
dificilmente as teremos".
       A esperana dos jovens era o estudo. Entretanto, os alunos saam com um
diploma nas mos, mas a grande maioria no mudava suas histrias. Devido s aulas
serem frias e distante da realidade dos alunos, eles no desenvolviam esprito!
empreendedor, ousadia, sonhos, capacidade crtica de pensar, habilidade para superar
frustraes.
       Mesmo nas escolas cujos pais eram ricos, os alunos saam despreparados para os
desafios da vida. Eles passavam nas provas curriculares, mas no nas provas sociais.
No sabiam! enfrentar seus problemas. Cresciam na sombra dos seus pais,] no eram
autores da sua histria. Muitos se tornavam torradores de herana. Eram poucos os que
escapavam do velho ciclo da riqueza: av rico, filho nobre, neto pobre. Muitos filhos de
nobres conheciam o sabor da escassez e da misria.
       Romanov, por um lado, estava abalado com o pessimismo e realismo de Cludia,
por outro lado, estava feliz pela sua coragem de critic-lo, de questionar sua postura em
sala de aula. Os alunos estavam aprendendo a debater idias, questionar seus mestres,
criticar o conhecimento e sua utilidade. A Escola dos Pesadelos estava se tornando um
canteiro para cultivar a inteligncia e no um depsito de informaes.
       Levando os alunos a usar a fora interior


       O pensamento de Cludia levou o professor a se interiorizar e mudar os rumos
da aula. Comeou a aplicar a fsica na vida diria. Comentou que h trilhes de planetas
e moramos em um deles.
       --  importante conquistar o espao, mas no sabemos cuidar do nosso pequeno
espao, do nosso intrigante planeta. Anualmente novos rios eram poludos, espcies so
extintas e a temperatura global aumenta.
       O instigante professor queria entrar no drama de Cludia, mas ainda no era o
momento. Fez algumas rbitas em outros assuntos, e acrescentou:
       -- Pensem um pouco. Apesar de sermos to pequenos nesse imensurvel
universo, somos to orgulhosos, estpidos c agressivos, a ponto de nos acharmos donos
do mundo. Na realidade, no somos donos de nada, nem da verdade, nem da nossa
prpria vida. Desenvolvemos tecnologias para nos comunicar com o mundo, para
produzir veculos e construir edifcios, mas no desenvolvemos tecnologia para
dialogar, para ser tranqilos, alegres, felizes. Usamos a fora para fazer guerras fsicas
ou guerras comerciais, mas no usamos a nossa fora para dominar nossa ansiedade,
intolerncia, desespero, desesperana.
       Os alunos comearam a desenvolver inteligncia crtica sobre esses srios
assuntos. O professor admitiu publicamente que Cludia tinha razo e acrescentou:
       -- Ns nos preocupamos tanto em informar que esquecemos de formar. O
conhecimento est aqui para servi-los e no para que vocs sirvam o conhecimento.
Mas, invertemos os valores. -- E a estimulou perguntando: -- De onde provm a maior
fora de um ser humano?
       Cludia pensou, pensou, mas no soube responder.
       Depois, perguntou para a classe.
       -- Dos seus msculos -- Helena respondeu.
       -- Da sua fora de vontade -- disse Jlia.
       O professor parou no meio da classe e afirmou:
       -- Dos nossos sonhos. Sonhos no so desejos. Desejos evaporam no calor das
dificuldades, sonhos resistem s altas temperaturas. Voc tem sonhos, Cludia? --
perguntou o professor.
       A resposta veio rpida e direta. Romanov foi novamente pego de surpresa.
       -- Minha me  doente, mas tem de trabalhar. Meu pai tem crise asmtica, s
vezes sente intensa falta de ar e, por isso, falta-lhe emprego, no tem trabalho fixo.
Estou com 16 anos. Sou uma menina pobre, de origem pobre, que vive num ambiente
pobre. No est vendo os remendos de minha | saia? Faz um ano que no compro uma
roupa nova -- falou Cludia desabafando.
       Em seguida, uma gota de lgrima escapou de seus olhos. Comovida, ela
acrescentou:
       -- Tenho medo de sonhar. No sonho porque acho que ' meus sonhos se
convertero em frustraes.
       Romanov esfregou as mos no rosto. Ficou com compaixo de sua aluna. Mas
no podia sentir d dela, pois o sentimento de d no a estimularia a ter f na vida e em
sua capacidade de lutar. Ento, olhou firmemente em seus olhos midos e repetiu as
palavras que sempre falou para Pavlov antes de ele morrer no ataque terrorista em
Beslan:
       -- Eu aposto que voc vai brilhar, Cludia, e se tornar um grande ser humano.
No tenha medo de se frustrar, tenha medo de no sonhar.
       Em seguida, escreveu na lousa algumas frases e pediu para todos os alunos
proclam-las como se fossem sua bandeira, seu norte:


       Os sonhos no determinam o lugar onde vocs vo chegar, mas produzem a
fora necessria para tir-los do lugar em que vocs esto. Sonhem com as estrelas
para que vocs possam pisar pelo menos na Lua. Sonhem com a Lua para que vocs
possam pisar pelo menos nos altos montes. Sonhem com os altos montes para que
vocs possam ter dignidade quando atravessarem os vales das perdas e das
frustraes.


       Os alunos ficaram abismados com esses pensamentos. Cludia caiu num estado
de reflexo. Como uma sedenta de anua, queria extrair dessas frases cada gota que delas
emanava.
       Percebendo seus alunos pensativos, o professor colocou mais lenha na fogueira
das idias. Para finalizar a aula, contou uma das histrias mais comoventes e
encorajadoras que conhecia.




       O cncer fsico e o cncer emocional


       Romanov disse que, certa vez, na Austrlia havia uma jovem chamada Karen.
Ela era socivel, bem-humorada, divertida, supervalorizava seus longos cabelos loiros e
tinha um grande sonho, o de ser mdica pediatra, mas era indisciplinada, no estudava
para as provas, no lia livros, no tinha garra. Os amigos no davam nenhum crdito a
ela quando dizia que ia ser pediatra.
       A bela e alegre Karen vivia sua vida sem grandes tempestades, at que passou
pelo mais dramtico vendaval, pela mais angustiante experincia. Enquanto brincava e
corria na praia num final de semana com seus amigos, sentiu tonturas e levou
subitamente um tombo na areia.
       Os amigos deram risadas pensando que ela tropeara. Mas no tropeou.
Simplesmente teve vertigem, ficou tonta, perdeu o equilbrio e caiu sem controle. Sua
face se chocou com o solo fortemente e ficou impregnada de gros de areia. Como
demorava a se levantar, os amigos, abalados, a socorreram. Passado o susto, divertiram-
se e Karen ainda curtiu a praia naquele dia.
       Todavia, posteriormente, comeou a ter alguns sintomas que preocuparam seus
pais. Feitos alguns exames, diagnosticou-se que Karen infelizmente tinha um tumor
cancergeno. Como contar a ela? O que falar?
       -- s vezes, dar certas notcias provoca um terrvel n na garganta, sufoca a
emoo. Saber falar uma informao negativa! irrigando quem est ouvindo com
esperana  uma arte e nem sempre se consegue. Karen precisava estar consciente da
sua doena, pois tinha de se tratar, fazer cirurgia, mudar sua rotina; -- disse o professor
Romanov.
       Quando os seus pais, junto com seus mdicos, lhe! falaram a respeito da sua
doena, o mundo desabou sobre ela. No parava de chorar. Seu pai, em prantos, a
abraou. Sua me tambm a abraou e lhe disse:
       -- Vamos vencer, juntos, o tumor! Tenha f em Deus, tenha f na vida, minha
filha. Voc  forte! -- E a beijava sem parar.
       Passado o desespero, ela sentiu-se mais consolada. No dia seguinte, seus
pensamentos ficaram inquietos, perturbados, acelerados. No parava de pensar no
cncer. Tinha um namorado que, no comeo, lhe deu fora. Mas o medo de nunca mais
beijar seus pais e de no abraar seus amigos e namorado asfixiava seu nimo.
       Romanov comentou que Karen precisava lutar contra um inimigo que no via e
que estava dentro dela. Passou por uma grande cirurgia e teve de mudar alguns dos seus
hbitos por causa de um longo tratamento, incluindo radioterapia. Os seus cabelos
longos e loiros enfraqueceram as razes e comearam a cair.
       Perdeu o nimo de se vestir, de se cuidar. O sorriso j no era to freqente. No
apenas o medo da sua doena a rondava, mas passou a se sentir feia, diminuda e
rejeitada. Faltava-lhe auto-estima, sobrava-lhe desnimo.
       -- Muitos de vocs tm sade, mas no a valorizam, tm o mundo para explorar
e conquistar, mas se sentem desanimados, sem coragem para lutar pelo que amam --
ponderou o professor. A turma foi pega de surpresa com essa observao. Cludia ficou
pensativa.
       Relatou que Karen colocava um chapu na cabea para disfarar a queda de
cabelo, mas todos sabiam que eles ralearam, afinal de contas eram grandes e vistosos. O
namorado a abandonou, s aparecia de vez em quando. A menina extrovertida comeou
a se isolar e se deprimir. Perdeu o prazer de ir  escola. Colocava as mos na cabea e
pensava: "Todos zombaro de mim". Construiu, sem perceber, alguns conflitos que a
bloqueavam.
       Suzan, uma grande amiga, foi visit-la e percebeu seu indecifrvel sofrimento.
Com muito respeito, ela comunicou seu conflito aos colegas de classe. Eles ficaram
profundamente sensibilizados pela amiga, Mas no sabiam o que fazer para que ela no
se sentisse rejeitada, para que ela se animasse.
       -- Karen no podia se deprimir, pois uma pessoa deprimida cuida menos da sua
qualidade de vida, diminui sua imunidade, enfraquece sua resistncia para lutar contra o
cncer. Ela havia emagrecido e apresentava vrios episdios de vmito -- disse
Romanov.
       Para desespero dos seus pais, parecia que ela no tinha garra de batalhar pela
vida. Eles procuraram uma psicloga para ajud-la. Certo dia, andava muito abatida nos
corredores do hospital em que se tratava. De repente, ouviu os gritos de alguns meninos
dentro de uma sala. Como sempre gostou de crianas, resolveu entrar. Ao entrar, levou
um choque emocional.
       Viu seis crianas brincando com bexigas. O que mais a abalou era que todas
estavam com a cabea brilhante, sem cabelos. Todas estavam em tratamento de cncer.
       -- Vem brincar com a gente -- elas disseram. Ela se negou. Ento, uma menina
de seis anos, pegando em suas mos, a levou para o centro da sala. Karen estava inibida,
h meses no brincava. Todos a envolveram.
       Ao ver o sorriso das crianas e a vontade de viver espelhada no rosto de cada
uma delas, ela finalmente entrou na folia. Pulou, brincou, fez ccegas, parecia que o
mundo tinha parado. Ao mesmo tempo que se divertia, comeou a se lembrar do sonho
de ser pediatra. Parecia que esse sonho estava sepultado, mas ele estava apenas
escondido.
       Nesse momento, o professor Romanov suspirou e fez uma pausa. A classe estava
num profundo silncio. Em seguida,! perguntou diretamente para Cludia:
       -- Qual a diferena entre sonhos e desejos?
       Ela pensou, mas no soube responder.
       Posteriormente perguntou para toda a classe. Ningum imaginou uma resposta.
Momentos depois, comentou:
       -- Desejos no resistem ao calor das dificuldades, sonhos so projetos de vida,
tm razes, por isso resistem aos problemas, brotam mesmo depois de longa estiagem,
pois suas razes nutrem-se dos mananciais profundos da personalidade.
       Cludia ficou comovida com a resposta. Ansiosa, queria saber o desfecho da
histria. Romanov continuou.
       Comentou que Karen tinha mais que um desejo, tinha um sonho, um projeto de
vida. Ao se envolver com aquelas crianas, ela comeou a resgatar seu sonho. Comeou
a freqentar aquela sala, ter o contato com muitas crianas que, sem perceber,
apostavam tudo na vida. Quanto mais a freqentava mais se sentia fortalecida, Ela deu
um salto na psicoterapia. As palavras de seus pais tambm comearam a germinar.
       Certa vez, ela fez uma orao e a registrou na capa do seu mais bonito caderno:
       -- Deus, muitos no tm doenas fsicas, vivem anos e anos, mas suas vidas no
tm sonhos nem aventura. D-me fora para lutar pela vida e pelos meus sonhos.
Ensina-me a viver cada dia como se fosse eterno.
       Karen fortaleceu-se tanto que, mesmo com a queda de cabelo se acentuando,
resolveu voltar  escola. Comunicou seu desejo a Suzan. Fazia um ms que no
freqentava as aulas. Antes de entrar na sala, lembrou-se dos tempos que brincava,
mexia com os colegas e se divertia sem preocupaes. De repente, ao entrar na sala,
Karen levou um susto, ficou perplexa. No conseguia acreditar na imagem que via.
         Nesse momento, o professor Romanov fez outra pausa. Os alunos ficaram
desesperados, queriam que ele continuasse a histria. Mas ele queria faz-los pensar.
         -- Sabe o que ela viu e a perturbou? -- indagou Romanov.
         Ningum imaginou. Realmente era quase inimaginvel.
         -- Viu a solidariedade! Viu a maioria dos seus amigos e das suas amigas calvos,
entre elas Suzan -- disse o professor. Em seguida, eles lhe disseram:
         -- Ns raspamos a cabea para mostrar que estamos juntos com voc nessa luta,
para mostrar que ns amamos voc do jeito que voc est e que voc  linda mesmo
com sua queda de cabelo.
         Foi um gesto de afetividade nico. Karen caiu num doce e incontrolvel pranto.
No conseguia dizer nenhuma palavra. Foi abraada e beijada por todos os seus amigos.
Estava atnita, flutuava diante da manifestao de carinho. Raramente o amor foi to
longe.
         Na classe de Romanov, alguns alunos comearam a chorar, entre eles Cludia.
         -- Os amigos de Karen aprenderam a se colocar no seu lugar, perceberam seus
sentimentos ocultos e a apoiaram num momento to difcil da sua vida. Aprender a
colocar-se no lugar dos outros  uma das mais importantes caractersticas da
inteligncia, mas infelizmente a maioria dos jovens no a desenvolve. Essa
caracterstica  a melhor vacina contra as rejeies, discriminao e isolamento.
         Em seguida, o professor ponderou que alguns casos de violncia na escola, como
alunos que saem atirando em seus! colegas de classe e professores, poderiam ser
evitados. Como? Se aprendssemos a perceber o sentimento das pessoas, compreender a
linguagem do corao, decifrar o sofrimento que as palavras nunca disseram.
         --E da, professor? Karen venceu seu cncer? -- perguntou Alex, ansioso para
saber o final da histria.
         -- Ela ainda teve vmitos, sentiu dores e se submeteu a outra cirurgia. Mas sua
garra, coragem e fome de viver foram mais fortes. Dedicou-se com disciplina ao seu
tratamento. Alm disso, ela sei soltou, comeou a participar de festas, a conviver sem
medo comi as pessoas. Sua auto-estima melhorou, seu nimo reacendeu. Por fim, Karen
triunfou, venceu o cncer. Mas ela j era uma vencedora, pois j havia feito de cada dia
um momento eterno.
       A classe vibrou. Alm disso, Karen foi disciplinada em outra coisa: na
transformao do seu sonho em realidade. Ela, que no morria de amor pelos estudos,
comeou a se destacar, estudava no apenas para as provas, mas por causa do seu
projeto de vida. Comeou a ler livros, jornais, interpretar melhor os textos, debater
idias. Assim, passou a ter um timo desempenho na escola, A turma surpreendeu-se.
       Por fim, entrou na faculdade de medicina. Aps o trmino da faculdade, a dra.
Karen se especializou em oncologia peditrica, mdica que cuida de cncer na infncia.
Brincava, sorria, parecia uma palhaa diante das crianas. Raramente se viu uma mdica
que amava tanto a vida e que batalhasse tanto pela vida de cada criana.




       Inspirando seus alunos


       Aps contar essa histria, o mestre da vida, Romanov, se aproximou de Cludia
e a surpreendeu. Admitiu que ela tinha razo ao observar que a cincia era, muitas
vezes, seca e insensvel. Os amigos de Karen perceberam a dor dela, mas ele no havia
percebido o sentimento de sua aluna.
       -- Cludia, falo de planetas que esto a milhes de quilmetros distantes de
mim com tanta segurana, mas s vezes no sei reconhecer os sentimentos dos meus
alunos que esto to prximos. No percebi seu sofrimento. Desculpe-me. -- Em
seguida, aproximou-se dela e a abraou.
       Cludia, que estava comovida com a histria, ficou boquiaberta com seu mestre.
Jamais viu um professor pedir desculpa para um aluno. Antes de bater o sinal para
terminar a aula, Romanov fez o desfecho:
       -- Alm do cncer fsico, h o cncer psquico. Lutem contra o cncer do
preconceito, do medo, da falta de sonhos e da falta de garra para transformar seus
projetos de vida em realidade. Os nossos maiores inimigos esto dentro de ns.
       Sob um clima de intensa inspirao, o professor Romanov escreveu na lousa em
letras enormes:


       Bons jovens tm sonhos ou disciplina. Jovens brilhantes tm sonhos e
disciplina. Pois sonhos sem disciplina produzem pessoas frustradas, que nunca
transformam seus sonhos em realidade, e disciplina sem sonhos produz servos,
pessoas que executam ordens, que fazem tudo automaticamente e sem pensar.
       Virando o jogo


       Nesse momento, Cludia percebeu que foi injusta com seus pais. Sua me,
apoiada pelo pai, a incentivava a estudar para que pudesse construir um destino
diferente do deles. Cludia tinha disciplina, mas no tinha sonhos, No estava vivendo
as palavras de Alexandre Graham Bell: "Se andarmos apenas por caminhos j traados,
chegaremos apenas onde os outros chegaram".
       Os pais eram pobres e doentes, mas eram sbios. S que ela no enxergava a
sabedoria deles. Aps ouvir a histria e ver as reaes de Romanov, saltaram  memria
frases que seus pais sempre lhe diziam, mas que s agora pde valorizar intensamente.
Pedindo permisso, levantou-se e foi escrev-las na lousa:


       Um ladro rouba um tesouro, mas no furta a inteligncia. Uma crise destri
uma herana, mas no uma profisso. No importa se voc no tem dinheiro, voc 
uma pessoa rica, pois possui o maior de todos os capitais: a sua inteligncia. Invista
nela. Estude!


       Os alunos, depois de abraar afetuosamente Cludia, anotaram essa frase e a do
professor Romanov. Fizeram delas um par de asas para voar alto. Cludia sonhou em
ser biloga e trabalhar com clulas-tronco. Desejou aventurar-se pelo mundo da
gentica, pois aprendeu a se aventurar pelo mundo dos sonhos...
       PARTE B



                                          Captulo 1




                                                           Bons alunos aprendem a
                                                               matemtica numrica,
                                                      alunos fascinantes aprendem
                                                           a matemtica da emoo




       A inveja e a competio que destroem


       Pedro e Rafael eram irmos. A diferena de idade entre eles era de trs anos.
Pedro, o mais velho, tinha dezesseis anos e Rafael, treze. Pedro apreciava praticar
esportes, mas, ao mesmo tempo, detestava perder. Era egosta, irritado, nervoso e no
sabia levar desaforo para casa. Rafael era tranqilo, tolerante, mas tinha poucos amigos.
       Logo depois do nascimento de Rafael, Pedro comeou a mostrar reaes de
cimes.  medida que cresceram, comearam as disputas. Toda brincadeira terminava
em brigas. Rafael no se importava muito com as coisas materiais, Pedro, ao contrrio,
no conseguia dividir seus objetos, perfumes, roupas. Quando Rafael pegava uma
camisa do irmo ou um dos seus brinquedos, a reao era imediata. Pedro rapidamente
tomava do irmo e, s vezes, no tapa.
       Freqentemente Pedro provocava Rafael, mas o clima ficava to ruim que
Rafael no se controlava, tambm o instigava. Os dois irmos estavam se tornando
inimigos. Os pais, dr. Carlos, um advogado respeitvel, e Ana, uma professora de
faculdade de pedagogia, ficavam desesperados.
       As disciplinas que aplicavam no tinham xito. Os limites que impunham no
eram eficazes. A trgua no durava mais do que um dia. Dr. Carlos e Ana foram
orientados por psiclogos, mas os irmos, em especial Pedro, no os ouviam. Pedro
chegou a freqentar o consultrio de uma psicoterapeuta, mas no durou um ms. Dizia
taxativamente que o problema no era ele, mas Rafael. No reconhecia sua inveja,
imaturidade e agressividade.
       Certa vez, Pedro foi longe demais. Chegou a dizer ao irmo: "Eu detesto voc.
No sei por que voc nasceu. Desejo que voc morra!". A me, ao ouvir essas frases,
sentiu-se a mulher mais infeliz do mundo. Criou os filhos para que fossem amigos e no
parceiros do dio.
       Dr. Carlos, como advogado experiente, sabia que as disputas entre irmos eram
comuns na adolescncia, mas os seus filhos passaram dos limites. Em seu escritrio, j
teve vrios casos de irmos que viveram em p de guerra a vida toda. No se entendiam,
no dialogavam nem se respeitavam. Na diviso da herana, viviam numa disputa
infernal. Temia que seus filhos repetissem essa dramtica histria.
       Tudo que Rafael fazia irritava seu irmo. Cantar, falar alto, abraar os pais, tudo
perturbava Pedro. Com o passar do tempo, Pedro comeou a fazer chantagens e a ter
crenas falsas. Acreditava que as pessoas e at seus prprios pais preferiam seu irmo a
ele. No suportava um "no", sem que em seguida dissesse que seus pais preferiam
Rafael a ele.
       Dr. Carlos e Ana ficavam perturbados com essa afirmao. Sabiam que isso era
uma mentira, mas caam nessa armadilha sutil. Cediam freqentemente  presso desse
filho e compravam o que ele desejava. Desse modo, Pedro conseguia um novo par de
tnis, cala e outros presentes. Seus pais pareciam serviais dele.
       Os pais no percebiam que, quanto mais davam ateno exagerada a Pedro, mais
ele os controlava. Pedro seguia um caminho perigoso. Preferia os presentes ao dilogo,
o prazer imediato a construir seus caminhos. No sabia lidar com os "nos", amava
apenas o "sim". Um dia, quebraria a cara. Quando casse na vida, teria de enfrentar os
"nos" no seu trabalho e nas relaes sociais. Como sobreviveria?
       De vez em quando, dr. Carlos perdia a pacincia com Pedro. Dizia: "Voc s me
d desgosto!, Voc faz todo mundo infeliz nesta famlia! Seu grande egosta!". O clima,
que estava ruim, piorava. Todos ficaram doentes. Nessa famlia, os membros s
conseguiam ficar sem atritos quando estavam assistindo  TV. Tornaram-se uma tpica
famlia moderna.




       Um mestre da matemtica da emoo


       Pedro era aluno da escola do professor russo. Apesar das mudanas introduzidas
por Romanov havia graves problemas. Trs professores no suportaram o estresse e se
afastaram para tratamento mdico. Alm disso, Jferson, professor de matemtica,
pensava em desistir de dar aulas. Romanov percebeu seu abatimento. Aproximou-se
dele e pouco a pouco se tornaram amigos. Querendo ajudar Jferson, lhe fez um convite
incomum: estudar a matemtica da emoo.
       A matemtica da emoo, to bela e ilgica, era muito mais complexa do que a
matemtica dos nmeros. Os dois professores passavam horas nos finais de semana
analisando livros que falavam sobre a influncia da emoo na construo do
pensamento e do raciocnio.
       Descobriram que o ser humano compreende o mundo atravs das janelas da
memria, que representam os arquivos que se abrem num determinado momento
existencial. Quanto mais se abrem as janelas da memria, mais se expande o grupo de
arquivos, mais informaes ficam disponveis e mais chances se tem de dar respostas
inteligentes nas situaes difceis.
       Entenderam que os poetas, os filsofos, os artistas plsticos, os polticos, os
professores, os alunos, bem como cada ser humano vem o mundo de maneira to
diferente uns dos outros porque tm gentica, biologia cerebral, histrias diferentes,
personalidade e ambiente social distintos. Mas existia um outro fator para compreender
a diferena de viso de mundo e das coisas:  a quantidade de janelas que cada um abre
a cada momento de suas vidas, seja na dor ou na alegria, nos sucessos ou fracassos, nos
aplausos ou vaias.
       Os dois mestres estudaram a teoria das janelas da memria. Essa teoria explicava
que a memria no se abre por completo, mas por territrios especficos, por janelas. H
muitos tipos de janelas na memria, entre elas as janelas light, que ampliam o
raciocnio, abrem o leque da inteligncia, e as janelas killer, que bloqueiam o raciocnio,
que assassinam a lucidez, a tranqilidade. As janelas light contm experincias
prazerosas e inteligentes, como as experincias de vida, o conhecimento cientfico, os
elogios, a autoconfiana, a segurana, a intuio, a sensibilidade. As janelas killer so os
traumas, as zonas de conflitos no inconsciente, que contm experincias dolorosas,
como medo, angstia, rejeio, perdas, frustraes.
       No momento em que abrimos as janelas killer, o volume de tenso ou ansiedade
gerado por elas bloqueia a abertura de milhares de outras janelas, impedindo o acesso a
inmeras informaes que poderiam produzir respostas brilhantes. Os mestres
compreenderam que um aluno que tem medo de fazer uma prova, que se cobra muito ou
 muito cobrado, pode produzir uma tenso to grande que bloqueia as janelas que
contm as informaes que aprendeu e, assim, ter pssimo desempenho, mesmo
sabendo toda a matria.
       Compreenderam que pessoas com claustrofobia que tm medo de lugar fechado,
quando esto em ambientes abertos so tranqilas. Entretanto, quando entram num
elevador, em frao de segundos detonam um gatilho que abre uma janela killer,
levando-as a ter crise de ansiedade, taquicardia, sensao de que falta o ar, de que o
elevador vai parar.
       Romanov e o professor Jferson entenderam que enfrentar a ansiedade nos
momentos de tenso e construir um clima de tranqilidade era fundamental para se
raciocinar bem, debater idias e poder fazer escolhas.
       Descobriram um segredo, ou seja, que nos primeiros trinta segundos que
entramos nas janelas killer, que contm agressividade e intolerncia, cometemos os
maiores erros de nossas vidas. Nesse breve intervalo de tempo, tomamos atitudes ou
falamos palavras que nunca deveriam ser ditas. H pessoas calmas que num ataque de
raiva ferem as pessoas que mais amam.
       O ser humano no raciocina adequadamente quando est irritado, nervoso,
amedrontado, decepcionado, deprimido. Os professores entenderam que gerenciar a
emoo  fundamental para irrigar a razo. Aprender a ver os problemas sob vrios
ngulos era muito importante para expandir a sabedoria.
       Para os dois sonhadores, o mundo dos adultos, constitudo de guerras,
competio predatria, discriminao e consumismo, estava doente. A esperana seriam
os jovens. Por isso, queriam conscientiz-los para que aprendessem a proteger a
emoo, para que tivessem uma mente livre, capaz de desenvolver a arte da critica,
inclusive para fazer autocrtica. Jferson falava desses assuntos na classe de Pedro.
         As relaes humanas no tm conta exata


         Sem ter conscincia, Pedro construiu uma srie de janelas doentias killer na sua
memria, gravando uma imagem doentia e distorcida de Rafael. Toda vez que tinham
uma pequena disputa, detonava em Pedro um gatilho no seu inconsciente e,
imediatamente, a imagem ameaadora de Rafael vinha ao palco da sua mente. O Rafael
de fora era uma pessoa dcil, mas o de dentro de Pedro tornara-se um monstro.
         -- Vocs esto aqui na escola clssica para aprender matemtica, mas, se
quiserem sobreviver l fora, na escola da vida, precisam aprender uma outra
matemtica, uma matemtica que muitos reis, intelectuais e polticos no aprenderam,
por isso falharam drasticamente como lderes.
         Os alunos, surpresos, perguntaram:
         -- Qual, professor? -- perguntou, curioso, Lus. Ele olhou para o ambiente de
fora da classe e disse:
         -- A matemtica da emoo.
         -- Nunca ouvi falar dessa matemtica, professor -- expressou Elisabete.
         Jferson, sem dizer palavras, pegou um giz e escreveu em letra de frma na
lousa.
         Bons alunos aprendem a matemtica numrica, alunos fascinantes vo alm,
aprendem a matemtica da emoo, que no tem conta exata e que rompe a regra da
lgica. Nessa matemtica, voc s aprende a multiplicar quando aprende a dividir, s
consegue ganhar quando aprende a perder, s consegue receber, quando aprende a
se doar.


         Os alunos se entreolhavam querendo entender os enigmas que para resolver os
problemas da matemtica da emoo era necessrio diminuir para aumentar. Disse que
devemos diminuir nosso orgulho para aumentar nossa maturidade, diminuir nossa
arrogncia para perceber o sentimento oculto das pessoas, diminuir nossa rigidez para
ter coragem de corrigir nossas rotas e repensar nossas verdades absolutas.
         Jferson discorria sobre um mundo onde no existem frmulas prontas, onde
temos de aprender a proteger nossa emoo, caso contrrio podemos ser escravos
vivendo em sociedades livres. -- Quem  controlado pelo cime, inveja, raiva, medo,
ansiedade vive num crcere emocional, numa masmorra psquica,  refm dos seus
traumas e conflitos -- disse o inteligente professor.
       Os alunos ficaram embasbacados com suas idias. Pedro prendeu a respirao.
       Perplexos, os alunos se perguntavam: "Ser que o professor Jferson mudou as
regras da matemtica?". Em seguida, o mestre continuou:
       -- Os nmeros no so compreensivos, uma conta s pode estar errada ou certa,
mas, nas relaes com as pessoas, no podemos ser lgicos demais, temos de ser
compreensivos e solidrios. Quem  excessivamente lgico causa um desastre nas
relaes com suas namoradas(os), colegas, amigos(as), pais. Temos de compreender
quem falha, animar quem tropea e dar oportunidades para quem errou de novo. Temos
de aprender a dizer: "Tente outra vez! Eu confio em voc!".
       Os jovens ficaram envergonhados, perceberam que eram radicais. Eram
especialistas em julgar, condenar, criticar os outros. Alguns viviam brigando com suas
namoradas. Tinham de ler a cartilha deles, no admitiam falhas. Reagiam como
meninos no corpo de gente grande. Eram pssimos para se colocar no lugar dos outros e
compreender.




       A triste infncia do professor Jferson


       Percebendo o interesse dos seus alunos, o professor contou uma dramtica
experincia que viveu na juventude. Comentou que seus pais eram muito pobres. No
tinham dinheiro para comprar frutas. Certa vez, sua me estava doente e seu pai
comprou, com sacrifcio, meia dzia de bananas para ela.
       Vendo as bananas, Jferson teve vontade de com-las. Foi escondido ao local e
comeu trs delas. Quando seu pai chegou, ele perguntou quem as tinha comido. Jferson
tinha mais dois irmos. Eles o acusaram.
       Diante da resposta, seu pai teve um ataque de nervos. Ele o obrigou a comer
todas as que haviam sobrado. Como ele se recusou, porque sabia que elas eram para sua
me, o pai o obrigou a com-las com casca e tudo. Recordando a histria, o professor
disse para a classe, que fazia um silncio sublime:
       -- Minha me gritava para que meu pai no fizesse aquilo. Mas ele estava
dominado pela raiva, no conseguia raciocinar. Foram segundos que perturbaram por
anos a minha vida. Enquanto comia, eu apanhava. Nesse momento, destru
completamente a imagem de meu pai dentro de mim. Constru diversos conflitos. Nunca
mais fui amigo dos meus irmos, tinha cimes e dio deles. Em alguns momentos,
desejava que eles morressem.
          Ao relatar sua histria, seus olhos lacrimejaram. Foi uma das raras vezes, dentro
de uma escola, que um professor de matemtica no escondeu suas lgrimas dos seus
alunos. Esse fascinante mestre no se escondia atrs do giz, ele ensinava com a alma. O
mestre cruzou sua histria com a dos alunos. Usou, portanto, uma das mais importantes
tcnicas para formar discpulos pensadores.
          Pedro viajava em sua prpria histria ao ouvir as idias e a histria do seu
professor. Nunca havia feito essa viagem de maneira to intensa em sala de aula.
          Aps uma pausa, Pedro perguntou ao seu mestre:
          -- Quanto tempo voc ficou sem conversar com seu pai?
          -- Durante muitos anos s conversava o essencial. Achava que ele no me
amava, pensava que preferia meus irmos. Sentia-me o garoto mais infeliz e rejeitado
do mundo. Alguns anos depois, minha me faleceu. Ento, resolvi tomar uma deciso.
Sair de casa para nunca mais voltar. Procurei meu pai e disse-lhe: "Eu no preciso mais
de voc. Eu vou embora e talvez nunca mais volte".
          "Por que, meu filho?", ele me perguntou surpreso, abalado e muito triste.
          -- Joguei-lhe na cara que ele me detestava e recordei o episdio das bananas.
Meu pai, ao ouvir as minhas palavras, sentou-se numa cadeira e chorou intensamente.
Eu no entendia o que estava acontecendo. Momentos depois eu o compreendi. Ele me
disse: "Sua me estava doente. Eu estava com medo de que ela morresse... Comprei as
bananas para que sua me, comendo-as, se fortalecesse. Era o nico dinheiro que eu
tinha".
          O professor fez mais uma pausa. Em seguida, concluiu:
          -- Meu pai me disse: "Perdoe a minha agressividade, meu filho. Nunca aprendi
a abraar, porque nunca fui abraado pelo meu pai. Mas isso no  desculpa. Perdoe-me
a estupidez". Ento, pela primeira vez, meu pai me contou que seu pai o espancava.
Disse que seu pai era alcolatra e que muitas vezes o tirava da cama e batia nele.
Comentou que sua infncia foi um inferno. Ento, percebi que ela foi pior que a minha.
          Ansioso, Pedro novamente perguntou:
          -- E da, professor? Voc foi embora de casa?
        -- Pedro, meu pai me disse algumas palavras que marcaram minha vida e me
fizeram mudar de direo: "Apesar de voc ter o direito de ir embora, quero agradecer-
lhe por voc existir. Voc  um filho maravilhoso. Eu o amo muito"
        Jferson, enquanto falava, viajava no tempo, recordava as imagens, como num
filme que estava  sua frente.
        -- Sabem o que aconteceu? Nesse momento eu aprendi as primeiras lies da
matemtica da emoo. Eu perdi meu orgulho para ganhar o amor do meu pai. Foi a
primeira vez que disse que, apesar de tudo, eu o amava. Vocs j disseram que amam ao
seu pai ou  sua me apesar de eles os decepcionarem? J disseram que os admiram
apesar de eles lhes dizerem "no" algumas vezes?
        -- E o relacionamento com seus irmos, como ficou? -- perguntou Ana Lusa.
        -- Eu comecei a v-los numa perspectiva multifocal. Enxerg-los por vrios
focos, em vrias direes. Descobri que quem enxerga seus problemas sob um foco s,
comete erros. Comeamos, por isso, um novo captulo em nossa histria. Comecei a
compreend-los e, depois de compreend-los, consegui perdo-los e tambm pedi
desculpas. Eles me acusaram sem pensar, talvez eu fizesse a mesma coisa. s vezes, as
pessoas que mais amamos nos ferem sem querer. So culpadas sem ter culpa. Abracei-
os profundamente. O cime dissipou-se, o dio evaporou, a inveja morreu. Respirei...
        Jferson comentou que esse episdio ocorrera havia mais de 15 anos e, at hoje,
ele e seus irmos cultivam uma slida amizade. Embora morem em cidades distantes,
toda semana se falam ao telefone.
        O professor Jferson casou-se e teve dois filhos. No suportou a solido do seu
pai. Convidou-o para morar junto com sua famlia. Quase diariamente eles se sentam na
varanda para conversar. So amigos inseparveis.
        -- Deixei de ser escravo dos meus traumas, oxigenei minha emoo, conquistei
minha liberdade. E vocs? -- questionou o magnfico professor, desejando que sua
platia de alunos sasse da condio de espectadores passivos e pensasse sua prpria
histria.
        Em seguida, bradou em voz altissonante:
        -- Trabalhem a matemtica da emoo na sua personalidade, lapidem esse
hbito como o ourives que lapida a mais bela pedra preciosa, assim desenvolvero em
sua personalidade a segurana, a humildade, a tolerncia, a solidariedade e a
capacidade de compreenso dos comportamentos das pessoas e as decepes que
surgiro.
       Abrindo as janelas da memria


       Pedro saiu da escola naquele dia sem dizer nenhuma palavra. No sabia perdoar
nem ser transparente, por isso nunca refletia sobre suas atitudes. Tinha uma necessidade
neurtica de estar sempre certo. Pensava tanto que seus pais gostavam mais de Rafael
que criou falsas verdades. Ficou quieto, pensativo, fez um mergulho dentro de si
mesmo, como nunca havia feito antes. Comeou a treinar seu senso de observao.
       Comeou a analisar como seus pais o tratavam e como tratavam Rafael. Ficou
observando durante semanas e quanto mais analisava mais caam por terra suas
convices. Pelo fato de exercitar sua inteligncia, uma luz brilhou. Entendeu o que
nunca quis entender. Entendeu que o cime que sentia do irmo era uma fantasia.
Descobriu que sua agressividade com o irmo e com seus pais era injusta. Sua
interpretao da realidade era distorcida e doentia.
       O que mais o abalou foi perceber que explorava seus pais, que os manipulava
para ganhar presentes e sugar a ateno deles. Entendeu que, em alguns momentos,
Rafael recebia mais ateno e carinho dos seus pais porque estava precisando. Em
outros, era ele quem recebia mais ateno porque necessitava. Enfim, compreendeu que
os pais amam igualmente, mas podem dar ateno de forma diferente.
       Desse modo, Pedro se libertou, pouco a pouco, de sua masmorra psquica,
comeou a enxergar os eventos da vida por mltiplos ngulos. Certa vez, quando todos
estavam reunidos num jantar, levantou-se da mesa e os surpreendeu. Pediu desculpas
aos seus pais e, pela primeira vez, disse que os amava. Boquiabertos, os pais disseram:
       -- O que est acontecendo, meu filho?
       Pedro respondeu:
       --  a matemtica da emoo, papai. Estou comeando a aprend-la -- disse
com segurana. Foi at seu irmo e o abraou. Em seguida, disse palavras
inimaginveis: -- Sei que o feri muito. Perdoe-me por critic-lo tanto e no ver suas
qualidades. Voc  meu nico irmo. Quero aprender a ser seu amigo. A vida d muitas
voltas, certamente precisaremos um do outro.
       Ento eles se abraaram como nunca o fizeram. O relacionamento naquela
famlia sofreu uma grande revoluo.
       Pedro era fechado, isolado e dado a pouco dilogo. Todavia, tornou-se
lentamente um jovem bem-humorado e socivel. Descobriu que o dinheiro compra
roupas, mas no o amor; compra o ttulo do clube, mas no a alegria; compra o bilhete
da festa, mas no o prazer; compra barcos, mas no ensina a navegar nas guas da
emoo.
       PARTE B



                                       Captulo 2




                                                      Bons alunos so repetidores
                                           de informaes, alunos fascinantes
                                                                  so pensadores




       Uma mente agitada


       O professor Jlio Csar era super engraado e, ao mesmo tempo, tinha uma
inteligncia muito aguada. No comeo, rejeitava as idias de Romanov, mas,  medida
que se conheceram, tornaram-se amigos inseparveis.
       Romanov disse-lhe certa vez um pensamento inesquecvel que ele anotou no
espelho do seu banheiro:


       Os professores no so valorizados socialmente como merecem, no esto nos
noticirios da TV, vivem no anonimato da sala de aula, mas so os nicos que tm o
poder de causar uma revoluo social. Com uma das mos eles escrevem na lousa,
com a outra, movem o mundo, pois trabalham com a maior riqueza da sociedade: a
juventude. Cada aluno  um diamante que, bem lapidado, brilhar para sempre.


       O pensamento de Romanov renovou a paixo de Jlio Csar pela educao. Ele
era professor de lnguas havia mais de 15 anos, mas estava desanimado e perplexo nos
ltimos tempos por observar o aumento gradual de ansiedade dos alunos. Percebia que a
mente deles estava cada vez mais agitada e inquieta. As conversas paralelas e a
agressividade haviam se expandido muitssimo.
          Jlio Csar, Romanov, Jferson e outros professores procuraram uma explicao
desse comportamento dos alunos, que se tornara um fenmeno mundial. Depois de
exaustivas pesquisas descobriram finalmente uma hiptese da sndrome SPA, Sndrome
do Pensamento Acelerado, que explicava que a edio dos eventos da vida nas
sociedades modernas atuava no teatro da mente humana e modificava a velocidade de
construo dos pensamentos e das emoes.
          As pessoas estavam agitadssimas. Tudo era muito rpido. As pessoas comiam,
falavam e trabalhavam aceleradamente. At os filmes atuais tinham uma velocidade
muito maior das cenas do que os filmes do passado.
          Entenderam que os alunos no tinham culpa por ser ansiosos. O culpado era o
sistema social que expandiu o nmero de necessidades, nem sempre necessrias, e o
nmero de informaes como nunca ocorreu na histria, entulhando a memria dos
jovens, fazendo-os construir pensamentos numa velocidade jamais vista, a no ser em
tempos de dificuldades e calamidades. Os alunos pensavam em "dezenas de coisas"
num pequeno espao de tempo. Os professores compreenderam que toda vez que se
aumenta a velocidade do pensamento gera-se ansiedade, inquietao e insatisfao.
          Descobriram que atualmente o conhecimento dobra no mximo a cada cinco
anos, o que no passado demorava sculos. O excesso de informaes, somado ao
desespero pelo consumo, a preocupao excessiva com a esttica e a moda registravam-
se no centro consciente da memria das pessoas, deixando inmeros arquivos abertos.
          A mente dos alunos no parava de acessar as informaes desses arquivos, como
um computador que no parava de operar, gerando uma produo intensa de
pensamentos sobre atividades, preocupaes, coisas do amanh. Desenvolviam vrios
sintomas. Tranqilidade nem para remdio. Pacincia evaporou-se.
          Alm de ansiosos, so irritados, possuem uma emoo flutuante, num momento
esto alegres, noutro, explosivos. No se concentram, no se interiorizam e ainda por
cima detestam a rotina, por isso no se cansam de dizer: "no tem nada para fazer nesta
casa!".
          E a sala de aula? Freqentemente  o ltimo lugar em que querem estar. Para
quem tem SPA, os professores so chatos, as aulas so insuportveis, o sinal de trmino
de aula  uma maravilha. A agitao dos pensamentos e a ansiedade so to intensas que
os jovens no extraem experincias dos seus erros e sofrimentos. A troca do cenrio no
palco da mente deles  to rpida que eles no elaboram as experincias, no refletem
sobre novas atitudes, no crescem diante das dificuldades. Continuam imaturos, mesmo
adultos.
       Para Romanov e seus colegas, os professores eram cozinheiros do
conhecimento, que preparavam o alimento para nutrir a inteligncia de uma platia sem
apetite. Nada  mais frustrante para um mestre do que ensinar para quem no quer
aprender. Por isso, a grande maioria dos educadores estava adoecendo nas sociedades
modernas.
       Milhares de professores estavam se deprimindo, desenvolvendo pnico, doenas
fsicas, no apenas devido aos seus problemas internos, mas  crise da educao. Alguns
tinham sintomas cardacos em sala de aula, outros desenvolviam gastrites e lceras.
Muitos sabiam que a educao estava no caos, mas, por no estudarem a construo dos
pensamentos, no sabiam que alteramos o seu ritmo.
       As crianas no corriam mais atrs das borboletas, no brincavam nas rvores,
no soltavam pipas. Os jovens no contemplavam o belo, no inventavam, no
libertavam sua imaginao e nem viviam a vida com aventura. Transformaram-se em
consumidores.
       Algumas pessoas culpavam os pais por no colocar limites nos seus filhos.
Entretanto, Jlio Csar e Romanov descobriram que os pais tentavam colocar limites,
mas, devido  ansiedade gerada pela SPA, no conseguiam. Pais e mes estavam
confusos e inseguros, sem saber como agir diante dos seus filhos. No passado, um olhar
de um pai ou me causava um impacto nos filhos, atualmente nem os gritos causavam
alguma reao.




       A destruio da auto-estima


       Alguns professores agrediam os alunos pensando que eles eram culpados por
tamanha agitao. No sabiam que o sistema social era o grande criminoso, que foi ele
quem provocou uma ansiedade desumana no teatro da mente dos jovens. Pior ainda, no
sabiam que, alm da SPA, o sistema estava destruindo a auto-estima das pessoas,
colocando modelos magrrimas pelos padres da medicina como parmetro do belo e da
auto-satisfao.
         O padro incomum de beleza difundido na sociedade penetrava no inconsciente
coletivo dos jovens, produzia conflitos com a auto-imagem e gerava uma rejeio pelo
prprio corpo. Milhes de jovens chegavam diante do espelho e pareciam se perguntar:
espelho, espelho meu, existe algum com mais defeitos do que eu?
         Muitos sentiam que nenhuma roupa lhes caa bem. Alguns se deprimiam, outros
desenvolviam anorexia nervosa, bloqueavam o apetite e emagreciam muito e ainda
outros desenvolviam bulimia, comiam sem parar e depois provocavam vmitos. Havia
at aqueles que desenvolviam vigorexia, malhavam sem parar nas academias e tomavam
remdios sem orientao mdica para ganhar massa muscular para ser valorizados. No
sabiam que o maior valor estava na inteligncia que possuam.
         Os jovens no sabiam que a grande maioria das modelos tambm sofria com a
ditadura da beleza, sempre rejeitavam uma rea do corpo, faziam regimes
maquiavlicos para no ser rejeitadas. Muitas desenvolviam tambm anorexia, bulimia e
depresso. Mendigavam o po da auto-estima. O sistema as usava e as descartava se
ganhassem alguns quilos a mais.
         Os professores queriam gritar para os jovens que a beleza est nos olhos do
observador. Mas, devido  sndrome do pensamento acelerado e  ditadura da beleza, os
jovens no se observavam como belos, bonitos, tanto interiormente quanto
exteriormente.
         Com auto-estima zerada ou diminuda, os jovens tornavam-se insatisfeitos e
canalizavam sua insatisfao para consumir mais. Assim, tornavam-se presas do mais
agressivo predador: o mercado.
         Jlio Csar, Romanov e seus colegas queriam que todos os jovens tivessem um
caso de amor consigo mesmos e fossem revolucionrios na sociedade. Revolucionrios
que criticassem o sistema social, que consumissem mais idias do que bens materiais e
que tivessem a coragem de no comprar em lojas e empresas que s usavam modelos
magras para vender seus produtos.
         -- Abram seus olhos! No sejam escravos do padro de beleza da mdia! -- eles
diziam. E acrescentavam: -- Cada um de vocs possui uma beleza nica, especial,
inigualvel, no importam seu peso, sua altura, a cor da sua pele nem a anatomia do seu
corpo.
         Por colocar msica ambiente em sala de aula, tal como o som da msica de
Beethoven, Bach, Mozart, Chopin, cada aula se tornava um espetculo. Alm da msica
ambiente, por fazer os alunos sentarem-se em crculo e debater as idias, os professores
conseguiram aliviar a SPA e diminuir pelo menos 50% da ansiedade de seus alunos. Dia
a dia a escola passava por transformaes.
       Estava ocorrendo algo encantador: os alunos estavam aprendendo a ter uma
mente livre, a questionar a si mesmos e ao mundo, como o jovem filsofo Plato
aprendera com Scrates. Porm, era preciso avanar muito.
       Os professores, estimulados pelo intrpido Romanov, resolveram no apenas
contar algumas histrias de vida em sala de aula, mas tambm humanizar o
conhecimento, ou seja, falar sobre a vida dos cientistas, comentar seus defeitos,
desafios, lgrimas, ousadias e rejeies que sofreram.
       Queriam que os jovens abrissem os horizontes da sua inteligncia por entender
que, por detrs de cada aula que presenciavam, existiam as dificuldades dos pensadores.
Desse modo, o conhecimento deixou de ser insosso e passou a ter um tempero
existencial.
       Comentaram sobre os medos, a coragem e as angstias de Einstein. Disseram
que foi um grande gnio, que produziu excelentes idias, mas errou tambm. Errou
principalmente ao deixar seu filho doente mental num hospital psiquitrico por mais de
vinte anos e nunca mais o ter visitado. Os alunos entenderam que o gnio da fsica
conheceu muitssimo o mundo de fora, o fsico, mas tinha seus problemas, como todo
ser humano, no mais complexo dos mundos, o psquico.
       Desse modo, percebiam que ningum era perfeito, seja professores, seja
pensadores. Assim, aprendiam dia a dia a deixar de ser repetidores de informao e
perdiam o medo de pensar e produzir conhecimento. Havia reflexo at nas provas, os
alunos passaram a ser mais inventivos. Todo esse caminho produzia finalmente uma
educao que inspirava a emoo, libertava a inteligncia, expandia o imaginrio.




       Agredindo um colega: o fenmeno bullying


       Bons professores conhecem bem sua matria, professores fascinantes conhecem
o funcionamento da mente. Por se dedicar em ser um professor fascinante, o professor
Jlio Csar foi aprendendo a lidar com conflitos em sala de aula, com as discusses
entre alunos e com os atritos dos alunos com seus professores. Mas de vez em quando
esses conflitos eram to graves que o tumulto parecia incontrolvel.
          Certa vez, presenciou uma reao entre dois alunos que o abalou. Viu Alex
ofendendo intensamente Fernando. Fernando vivia viajando nos seus pensamentos, era
distrado, no se concentrava, sofria por antecipao, preocupava-se muito com as
coisas que no aconteciam. A ansiedade dele era bem intensa. Alm disso, tinha
dificuldade de aprendizado. No conseguia acompanhar a classe.
          O jovem era to disperso que freqentemente fazia perguntas sobre um assunto
que o professor havia acabado de explicar. Outras vezes, fazia comentrios que nada
tinham a ver com o assunto tratado. Muitos dos seus colegas zombavam dele pelas
costas.
          Os alunos no sabiam o valor da incluso, a importncia de conviver com
pessoas diferentes. No compreendiam que os maiores erros cometidos pela
humanidade ocorreram por no aceitar e respeitar pessoas diferentes, seja no campo
intelectual, social, racial, cultural ou religioso.
          Jlio Csar era paciente com Fernando e admirava sua participao. Como
Romanov, pensava que jovens calados so bons para formar um exrcito, mas no um
time de pensadores. No queria uma platia de robs.
          Aps Fernando fazer mais uma pergunta sem relao aparente com o assunto
ensinado, Alex no se agentou e gritou do fundo da classe:
          -- Burro! Mongolide! Acorda!
          A turma caiu em gargalhadas. Alex era considerado o lder da turma e Fernando
era considerado o patinho feio da classe. Humilhado, lacrimejou os olhos, sentiu um n
na garganta. Logo depois, levantou-se e ameaou sair do ambiente.
          Jlio Csar imediatamente fez uma interveno:
          -- Por favor, Fernando, no saia. -- E olhando para toda a classe e depois para o
agressor, comentou: -- Voc acabou de cometer um grave erro contra seu colega.
Zombou de sua capacidade intelectual. Fez dele um palhao e objeto de deboche diante
de toda a turma. Sabia que muitos pensadores tinham o perfil psicolgico de Fernando?
Eles brilharam porque no tiveram medo de perguntar, de se expressar.
          Alex tentou disfarar escondendo seu rosto. Mas o professor fez uma clebre
defesa da incluso social. Disse que quem no  capaz de aceitar pessoas diferentes
comete atrocidades nas relaes sociais. Comentou sobre a escravido dos negros, a
morte de seis milhes de judeus na Segunda Grande Guerra, conflitos entre cristos e
muulmanos na histria, a turbulncia na regio da Caxemira na ndia e em muitos
outros lugares.
       Comentou ainda que a nossa espcie est doente, doente pela discriminao, pela
falta de respeito, solidariedade, pela dificuldade de incluso social. E acrescentou:
       -- Os fracos julgam e excluem, mas os fortes incluem e compreendem. -- Em
seguida, ainda no satisfeito, perguntou para Alex: -- Sabe como se chama esse tipo de
agressividade entre os colegas?
       Alex no soube responder. Em seguida, o professor fez a mesma pergunta para a
classe. Mas ningum sabia a resposta.
       -- Fenmeno bullying -- respondeu com segurana.
       -- Que fenmeno  esse? -- perguntou Joana, curiosa.
       -- Bully quer dizer valente, agressor. Toda vez que os colegas agridem,
diminuem, discriminam ou rotulam outros colegas, eles cometem o fenmeno bullying,
se tornam agressores, controladores e at carrascos emocionais deles. Entre as crianas e
adolescentes existem muitas brincadeiras. Algumas so saudveis, estimulam a
criatividade e o prazer. Entretanto, outras machucam profundamente a emoo e geram
traumas na personalidade.
       Alex engoliu saliva e calou-se. Jlio Csar tambm havia sido vitima do
fenmeno bullying na adolescncia. O assunto tocava-lhe fundo, por isso resolveu falar
sobre alguns segredos da mente humana para compreenderem melhor como esse
fenmeno pode prejudicar drasticamente a formao da personalidade.




       No  possvel deletar a memria


       -- O registro na memria  involuntrio. Todas as idias, pensamentos, imagens
mentais, emoes, sejam tolas ou inteligentes, lcidas ou perturbadoras, so registradas
automaticamente.
       -- Professor, mas nos computadores eu registro o que eu quero! -- afirmou
Mrcia.
       -- Sim, mas, na memria humana, voc no tem essa opo. O fenmeno RAM
(Registro Automtico da Memria) arquiva tudo automaticamente. Isso  fcil de
perceber pela nossa experincia. Porm devemos tambm compreender que todas as
experincias que tm mais emoo, sejam prazeres ou sofrimentos, tranqilidade ou
medo, so registradas de maneira privilegiada. Por isso, recordamos com facilidade
principalmente os momentos mais marcantes de nossas vidas. -- Aps dizer tais
palavras, o professor perguntou: -- Podemos apagar ou deletar o que est arquivado?
       Lus se adiantou e respondeu:
       -- Creio que sim, pois nos computadores a coisa mais fcil  apagar os arquivos.
       -- Voc j tentou apagar da sua memria um problema que atravessou?
       Lus h dois dias tinha perdido duzentos reais. Tentava apagar da sua mente essa
perda, mas, quanto mais tentava, mais pensava no assunto.
       -- No! -- disse Lus sem delongas.
       Em seguida, Jlio Csar perguntou a Alex com delicadeza:
       -- Voc tentou deletar da sua memria quem voc ofendeu ou decepcionou?
       O aluno ficou vermelho, percebeu onde seu professor quis chegar. Alex havia
levado um fora da sua namorada h um ms. Por querer control-la e ao mesmo tempo
achar que podia ficar com uma garota por semana, ela rompeu a relao e nem
telefonema dele atende mais. Ele tentava esquec-la, mas pensava dia e noite nela.
       -- Queria deletar alguns arquivos ruins da minha memria, mas no consigo --
disse com sinceridade, comeando a ficar consciente da injustia que praticou com
Fernando.
       O professor tomou a dianteira e disse:
       -- Ningum consegue deletar a memria, at porque ningum sabe onde esses
arquivos esto alojados no crtex cerebral, que  o local do crebro onde as experincias
so registradas. S podemos superar os traumas atuando nos sintomas que eles
desenvolvem ou resgatando nossa histria, nos auto-conhecendo, descobrindo como e
quando os desenvolvemos. s vezes, quando o trauma  importante, precisamos da
ajuda de profissionais da psicologia.
       Em seguida, suspirou e disse que a agressividade e humilhao geradas pelo
fenmeno bullying eram arquivados de maneira privilegiada na memria, podendo gerar
traumas significativos.
       Alguns alunos gelaram. Comearam a entender que pequenos gestos podem
gerar grandes conseqncias. Vendo os alunos pensativos, o professor olhou para
Fernando e corajosamente procurou resolver o conflito em sala de aula:
       -- Os fracos julgam e excluem os outros por serem diferentes, mas os fortes
compreendem e incluem. Que  ser ofendido? Que fazer quando ofendido? Ter raiva?
Sair da classe? Vingar-se? Ou fazer a orao dos sbios?
       O professor, influenciado por Romanov, ensinava perguntando, provocava a
mente de seus alunos como Scrates fazia com seus discpulos. Era impossvel no
pensar. Curioso, Fernando perguntou:
       -- Nunca ouvi falar da orao dos sbios. Qual ?
       -- O silncio. S o silncio contm a sabedoria quando a vida est ameaada,
sob risco, presso, ofensa -- disse o sbio professor. E adicionou: -- Quem consegue
raciocinar com brilho quando est nervoso? Na esfera do silncio voc deve abrir o
leque da inteligncia, romper as algemas dos arquivos doentios que financiam o medo, o
dio, a timidez, e procurar a mais excelente resposta.
       Enquanto orientava Fernando, Alex ficava em profundo silncio pensando. Os
alunos estavam aprendendo a caminhar nas trajetrias do seu prprio ser. Estavam
aprendendo a proteger sua emoo, reeditar os arquivos doentios do seu inconsciente.
       O professor acreditava que se os alunos de todas as escolas da Terra
aprendessem a fazer esse passeio pelo seu interior, aprendessem a arte da reflexo e, ao
mesmo tempo, desenvolvessem habilidade para dialogar sem medo sobre seus
problemas e conflitos, poder-se-ia prevenir milhares de traumas e at evitar suicdios.
       Jlio Csar pediu para todos os alunos procurar seus pais, professor ou um
amigo experiente em quem confiavam para contar os problemas mais graves. Ele
valorizava muito a psiquiatria e a psicologia clnica, mas sentia que devamos investir
nossos esforos na preveno pela educao, pois todos concordavam que a preveno
era a rea mais fundamental da medicina.
       Momentos depois, o professor perguntou de maneira genrica:
       -- Algum aqui j se sentiu diminudo por algum colega?
       Por incrvel que parea, mais de 80% da classe levantou as mos. Alex tambm
se sentiu diminudo nos primeiros trs anos de escola. Ele era muito ansioso e
espalhafatoso, no tinha coordenao motora, sentia-se um pssimo esportista. Sua
atitude de agredir era uma projeo da agressividade que recebeu e que nunca foi
resolvida. Por refletir sobre sua histria, caiu em si.




       Beija! Beija! A festa depois do caos


       O professor ficou preocupado com o nmero de pessoas que levantou as mos.
No esperava uma proporo to grande. Em seguida, escreveu na lousa:
         Nunca valorizem um defeito fsico de algum ou um comportamento de
algum que vocs achem estranho. Valorizem suas qualidades e respeitem as
diferenas. Jamais coloquem apelidos que diminuam as pessoas. Mesmo em tom de
brincadeira, no copiem os programas de humor que debocham das caractersticas
dos outros para fazer a platia rir. Os verdadeiros pensadores so apaixonados pela
humanidade, conseguem colocar-se no lugar dos outros e enxergar o invisvel.


         Nesse momento, Alex captou Fernando com os olhos. Fez um sinal de positivo
para ele, como se quisesse pedir desculpa. Os que perceberam esse gesto brincaram,
gritando:
         -- Beija! Beija!
         Percebendo que Alex ficou inibido diante da turma, Fernando levantou-se, foi
at seu ofensor e disse-lhe:
         -- Eu o perdo.
         Numa atitude surpreendente, Alex levantou-se, deu-lhe um abrao e respondeu:
         -- Desculpe-me, eu fui um fraco.
         -- No, reconhecer seu erro, o torna forte -- reagiu Fernando.
         A classe aplaudiu. O clima estava to agradvel que o professor falou sobre o
excelente cdigo de tica do personagem mais famoso da histria, o Mestre dos mestres,
Jesus:
         -- No faam para os outros o que vocs no querem que os outros faam para
vocs.
         O Mestre dos mestres respeitava incondicionalmente o ser humano. Ele
valorizava mais a pessoa que erra do que os erros cometidos. Tratou com gentileza at
seu traidor, Judas Iscariotes. Deu-lhe oportunidade at o ltimo momento para ele
reescrever sua histria.
         Em seguida, o professor disse que, se os alunos no querem ser ofendidos, que
no ofendam. Se no querem ser rejeitados, que incluam. Se desejam ser elogiados,
elogiem. Se querem o carinho e a ateno dos outros, dem-lhes primeiramente seu
apoio, coloquem-se  disposio de quem precisa. A tica de Jesus Cristo est no centro
da educao para a paz. Se as sociedades vivessem esse princpio, no haveria lutas
religiosas, os generais seriam jardineiros, os policiais, poetas, as indstrias de armas se
transformariam em indstrias de alimentos, as guerras seriam apenas cicatrizes nos
textos de histria.
         Os alunos ficaram fascinados. De repente, um deles fez uma pergunta fatal:
         -- Professor, voc tambm foi humilhado por seus colegas na escola? --
indagou Mrio, pensativo e sem inibio.
         Pego de surpresa, Jlio Csar fez a orao dos sbios. Aps um momento de
reflexo, resolveu contar alguns captulos da sua vida que lhe trouxeram grande
sofrimento. Sentiu que era o momento de se humanizar, cruzar a sua histria com a
histria dos seus alunos. Inundado por intensa emoo, ele disse:
         -- Nos primeiros anos de escola eu sofri muito. Perdi meu pai quando eu tinha
nove anos de idade. Jogvamos futebol, pescvamos e passevamos juntos
freqentemente. Ele era meu melhor amigo. Era valente, forte, parecia imbatvel, mas
um dia sofreu um infarto fulminante. Da noite para o dia, perdi meu ponto de apoio --
disse o professor, intensamente comovido.
         Aps uma pausa, continuou: -- Alm da dor insuportvel de perder meu pai, um
ano depois alguns colegas comearam a zombar de mim por causa da minha estatura e
pelo tamanho do meu nariz. Esto vendo meu enorme tamanho? -- brincou.
         Os alunos sorriram. Em seguida, brincou novamente:
         -- Esto vendo essa bela ferramenta de respirar? Meu nariz no  lindo? -- e
apontou para seu avantajado nariz de descendente de italiano. -- Sabem qual eram os
apelidos que me machucaram muito na adolescncia? -- E respondeu em seguida: --
Tampinha e Tucano. Vejam que as palavras at combinam -- falou em tom de humor
para uma classe que se deliciava em ouvi-lo. -- Felizmente superei meus conflitos, mas
vocs no imaginam a dor que senti por me sentir rejeitado. A dor da rejeio  uma das
mais dramticas experincias psquicas. Sentia-me inferior aos amigos. Era inseguro,
fechado, tinha medo de me aproximar de uma garota. -- E brincou: -- Hoje sei que sou
lindo!
         Para finalizar, o professor pediu para os alunos se levantarem, se abraarem e
dizerem uns para os outros que eram lindos. Foi uma festa. O diretor, ouvindo as
gargalhadas, assustou-se. Dirigiu-se apressado at a classe. Ficou boquiaberto com tanta
alegria.
         Romanov tambm se dirigiu apressadamente ao local. Entrou no clima, abraou
muitos alunos. Afinal de contas, um dia os colegas e professores se separariam. Muitos
teriam saudades uns dos outros, mas nunca mais se veriam. Portanto, tinham de
aprender a se curtir e a criar amizades com razes que suportariam os invernos da
existncia.
       PARTE B



                                          Captulo 3




                                                    Bons alunos escondem certas
                                                     intenes, alunos fascinantes
                                                                   so transparentes.




       A memorvel histria de uma rainha


       Sofia era uma professora de filosofia muito preocupada com o carter dos seus
alunos. Gostava de ler jornais, mas volta e meia estourava um escndalo na imprensa
envolvendo corrupo de polticos, vantagens em licitaes, fraudes, trfico de
influncia. Sabia que havia lderes srios e comprometidos com a sociedade, mas tinha
conscincia de que somente uma safra de jovens transparentes, amantes da honestidade
e fiis  sua conscincia poderia mudar os pilares da sociedade.
       Certa vez, mais um escndalo estourou na imprensa envolvendo o presidente do
pas e seus principais assessores. Ela ficou preocupada com as conseqncias desse
escndalo no inconsciente coletivo da juventude. Poderia desanim-los a se tornarem
lderes sociais, a no terem esperana na sua nao e poderia at bloquear seus sonhos.
       No outro dia, perguntou o que os alunos pensavam dos polticos. A viso
pessimista dos jovens a assustou. Uns responderam que era a melhor maneira de ganhar
dinheiro, outro disse que raramente algum presta e ainda outros diziam que todos eram
farinha do mesmo saco. Alguns ainda disseram que, quando crescessem, queriam ser
polticos, para levar vantagem em tudo.
       Preocupadssima, ela disse que corrupo havia em todos os pases, o que diferia
era a freqncia e intensidade do procedimento.
       -- Uma pessoa corrupta -- disse ela --  egocntrica, individualista, no tem
tranqilidade, possui uma dvida impagvel com sua prpria conscincia. Uma pessoa
corrupta nunca ser um grande lder social, pois no  lder de si mesma.
       Querendo treinar o carter dos seus alunos, ela contou-lhes uma fascinante
histria que mudaria para sempre a viso de muitos deles.
       H muitos anos um poderoso e inteligente prncipe queria encontrar a mulher da
sua vida. Seu pai estava doente e ele estava para se tornar rei. Porm, no queria errar na
escolha, afinal de contas a jovem com quem se casaria se tornaria a rainha. Sonhava que
quem reinasse com ele fosse gentil, dcil, amvel e principalmente transparente.
       O maior medo do futuro rei era de que a mulher com quem se casasse
valorizasse mais seu reino do que ele mesmo, mais os privilgios da corte e seus
tesouros do que o seu amor. Os ministros do reino consideravam a preocupao do
prncipe imatura. Alguns o achavam frgil e pouco inteligente, indigno da coroa.
       Consultou os sbios para saber como no errar nessa deciso to importante. Os
sbios disseram que ele deveria casar-se com uma jovem riqussima do prprio reino
ou, melhor ainda, deveria desposar a filha de um poderoso rei de outra nao. Assim,
alargaria suas fronteiras.
       O reino estava envolvido em disputas internas malvolas. Devido  doena do
rei, alguns ministros, generais, coletores de impostos aproveitaram a situao para se
corromper, disse a professora de filosofia. Em seguida, adicionou:
       -- A falta de liderana  um canteiro para o individualismo. Escolher a futura
rainha era importante para manter a unidade do reino. Muitos achavam que se o prncipe
no mostrasse inteligncia para encontrar sua esposa, no teria inteligncia para
governar seu reino.




       Encontrando a resposta na natureza


       Desanimado com os conselhos que lhe deram, o prncipe saiu pelos campos a
pensar. Depois de horas de meditao, caiu-lhe algo na cabea. Levou as mos para ver
o que era e ficou fascinado, era uma semente amarela e pequena. De repente, veio-lhe a
euforia, pois encontrara sua resposta. Parecia embriagado de alegria.
       Resolveu promover uma festa para que as moas interessadas em casar-se com
ele pudessem apresentar-se. Foram convidadas jovens de vrios outros reinos, bem
como as do seu territrio, especialmente as mais ricas.
       Trabalhava no castelo, como serva, uma senhora que tinha uma linda e singela
filha, chamada Priscila. Quando comunicou a Priscila que o prncipe iria casar-se e que
ele daria uma grande festa para escolher a noiva, ela disse que se apresentaria como
candidata. Priscila o admirava sem o conhecer pessoalmente, pois sua me sempre
contava sobre a bondade, simplicidade e inteligncia do jovem herdeiro.
       Uma mulher rica do reino, cuja filha participaria do concurso, ficou sabendo da
inteno de Priscila. Chamou-lhe a me e, com arrogncia, disse-lhe:
       -- Sua filha est delirando, sonhando com o impossvel! A filha de uma serva
jamais poder ser uma rainha.  contra os princpios.
       Profundamente entristecida, mas achando que essa mulher estava correta, a me
de Priscila comentou as frases cortantes que ouvira. A jovem, abalada, rebateu:
       -- Mame, ns somos pobres, mas somos seres humanos! O dinheiro compra
carruagens, mas no compra a felicidade, compra roupas tecidas com fios de ouro, mas
no compra o valor de uma pessoa -- falou a jovem com dignidade.
       Apesar de ser pobre, Priscila queria ser tratada com dignidade. Sabia que no
tinha chance nenhuma de ser a escolhida, mas queria aproveitar a oportunidade para
ficar perto do prncipe. Amava um desafio. Ela possua uma beleza interior que
contagiava as pessoas. Muitas jovens ricas gostavam de ficar perto dela.
       -- Priscila tinha trs jias que valiam mais que diamantes: simplicidade,
generosidade e transparncia -- disse Sofia. E perguntou para toda a classe: -- Quais
dessas jias vocs possuem?
       Os alunos ficaram pensativos. Em seguida, a professora continuou contando sua
histria. Disse que algumas jovens filhas de lordes eram boas alunas, conseguiam notas
altas nas provas, mas simulavam seus comportamentos. Ningum sabia o que elas
realmente pensavam ou sentiam. Gostavam de se exaltar e contar vantagens, em busca
das migalhas dos aplausos. Algumas mentiam at para si mesmas.
       Entre essas jovens estavam Helena e Barbie. Elas conheciam Priscila e tinham
inveja dela, no admitiam que a filha de um campons com uma empregada do palcio
fosse to socivel e cativante. Duas semanas antes do concurso, elas a encontraram e a
estimularam a participar dele. Pareciam estar sendo generosas.
       Na realidade, estavam simulando sua verdadeira inteno. Queriam que Priscila
fosse zombada publicamente, pois achavam que somente algum perturbada poderia ter
a coragem de concorrer ao lado delas e de outras belas moas, com os mais belos
vestidos e com as mais belas jias do reino.




       Um desafio aparentemente simples


       O grande dia chegou. Centenas de jovens finamente trajadas estavam no saguo
do grande palcio. Ao ver Priscila e observar seu vestido de cima a baixo, algumas
jovens no contiveram seu sorriso de deboche. Aparentemente seu vestido era o mais
simples e o mais feio. Helena e Barbie se aproximaram uma da outra e disseram:
       -- Coitada! Descobriram a boba da corte.
       Priscila ouviu que estavam zombando dela e entendeu afinal qual era a
verdadeira inteno delas.
       De repente, ao som de trombetas, o prncipe apareceu com seus ministros,
generais e sbios do reino. Todas as jovens suspiraram. Ningum sabia o que as
aguardava. Nem os que rodeavam o prncipe sabiam como se daria o processo de
escolha. Um momento solene de silncio se fez. Subitamente o prncipe abriu a boca e
aos brados lanou um desafio:
       -- Cada uma de vocs receber uma semente para ser cultivada. Daqui a trs
meses darei um grande baile. Aquela que me trouxer a mais linda flor ser a escolhida
para ser a rainha -- disse o prncipe com singeleza e espontaneidade.
       Todas as moas acharam estranho o desafio do prncipe. Era muito simples a
tarefa. Animadas, a maioria saiu do palcio convicta de que receberia a coroa. Os sbios
e os ministros do reino menearam a cabea achando que realmente o jovem era
despreparado para governar. Jamais viram um prncipe to ingnuo e destitudo de
inteligncia. Um cargo to grande merecia um desafio  altura, pensaram.
       Vrias pretendentes, julgando-se espertas, entenderam que o prncipe pretendia
na verdade era que o estilo dos cabelos, das vestes e dos movimentos do corpo fossem
to belos como uma flor.
       O drama de Priscila


       Priscila pegou a sua semente, plantou-a num vaso e, apesar de pouco entender de
jardinagem, cuidava da terra com muita pacincia e ternura. Sonhava com a planta que
nasceria e com a belssima flor que dela surgiria. s vezes, libertava sua imaginao e
sentia at seu perfume.
       Passou-se uma semana e a planta no nasceu. Priscila ficou preocupada. Regava
mais ainda, deixava cair a cada hora algumas delicadas gotas de gua. Duas semanas se
passaram e o broto no surgiu. A moa esmerou-se ainda mais nos seus cuidados.
Aconselhou-se com pessoas experientes.
       Alguns jardineiros disseram que a semente no nasceu porque ela colocou muita
gua, outros, adubo em excesso, e ainda outros porque compactou demais a terra do
vaso. Todos foram unnimes em dizer que, independente da causa, se a semente no
eclodiu em quinze dias dificilmente nasceria. Desesperada, via seu sonho cada vez mais
distante. Apesar da frustrao, no conseguia dissipar seu amor pelo prncipe.
       Um ms se passou e o vaso continuava sem vida. Enquanto derramava as gotas
de gua, as gotas de lgrimas tambm caam no recipiente. Dois meses se passaram e
seu corao estava partido. A flor no brotou e seu corao se entristeceu.
       Sofia fitou os olhos dos seus alunos e disse-lhes:
       -- Algumas pessoas aconselharam que ela plantasse outras sementes. Afinal de
contas, ningum descobriria. O que vocs fariam? Plantariam outras sementes? Vale a
pena obter o sucesso a qualquer preo?
       Alguns na classe acharam que no havia mal algum em plantar outra semente.
Segundo eles, os fins justificam os meios. Mas Priscila rejeitou essa idia.
       Trs meses se passaram e o pequeno vaso continuava estril, sem vida. Vendo-a
abatida, as pessoas prximas aconselharam que ela jamais retornasse ao concurso.
Todos sabiam que Priscila era gentil, mas, ao mesmo tempo, determinada e teimosa.
Depois de muito meditar e de estar consciente de que fez de tudo ao seu alcance, disse,
para espanto de todos, que iria ao baile e levaria seu vaso, mesmo sem planta.
       --  loucura! -- diziam os amigos.
       -- Ser um vexame! -- diziam os parentes.
       Sua me fez um ltimo esforo para ela no retornar ao palcio. Vendo a dor da
me, Priscila derramou novamente algumas lgrimas que borraram a sua maquiagem e
molharam seu vestido simples. Para consolar a me, disse-lhe:
       -- Poderei passar vergonha mais uma vez, mame, mas serei honesta comigo
mesma. No consegui cultivar a semente e vou assumir meu erro.
       Quando chegou ao baile, perturbou-se muitssimo. Viu todas as outras
pretendentes segurando vasos com as mais lindas flores, uma mais linda do que a outra.
Os vestidos combinavam com as cores das ptalas. Era algo sublime.
       Ao ver Priscila, mais uma vez, vrias pretendentes debocharam dela. Dessa vez
o deboche foi mais aparente. Deram gargalhadas incontroladas, no apenas porque no
possua jias e seu vestido era simples e fora de moda, mas porque seu vaso no tinha
flor, no possua vida. Humilhada, comeou a entrar em pnico e pensou em desistir.
       De repente, as cometas tocaram triunfalmente. Todas ficaram em profundo
silncio. Quando o prncipe chegou, elas suspiraram. Ele pediu para que elas formassem
filas. Elas, eufricas, enfileiraram-se. O prncipe se aproximou de cada uma delas.
Olhava para seus olhos e para a formosura da flor. Em seguida, perguntava seus nomes.
       Quando chegou diante de Priscila e viu o vaso sem flor e seu vestido com gotas
de lgrimas, meneou a cabea e nem sequer seu nome perguntou. As moas que
estavam prximas colocaram seus lenos na boca para que no se ouvisse o som das
suas risadas.
       Os lderes do reino observavam atentamente os gestos do prncipe e se
entreolhavam. Depois de trs horas, e de analisar flor por flor, o prncipe sentou-se no
seu trono. Em seguida, pediu que as moas fizessem uma grande roda no salo nobre do
palcio. Disse que sua deciso tinha sido tomada e que a jovem que ele tirasse para
danar seria a escolhida.
       Alm das moas e dos lderes do reino, havia reis e nobres na lateral do salo
torcendo por suas filhas. Chegou o grande momento.




       As pessoas transparentes fazem a diferena


       A professora de filosofia, mais uma vez, dirigiu-se aos seus alunos e perguntou:
       -- Quem o prncipe escolheria? Que parmetro usaria para encontrar sua rainha?
       Os alunos ficaram perdidos. No tinham respostas. Estavam ansiosos para saber
qual era a deciso. Sofia continuou. O prncipe foi para o meio do salo. Passou seus
olhos sobre a roda de mulheres e, para surpresa de todos, foi at a jovem que no tinha
flor nenhuma no vaso, beijou suas mos e, emocionado, disse-lhe:
       -- Qual seu nome?
       Com os lbios trmulos, ela lhe disse:
       -- Priscila.
       -- Minha rainha! Priscila, voc aceita danar comigo e ser minha esposa? --
falou com suavidade.
       Priscila caiu em prantos. Todos estavam perplexos. O burburinho foi geral.
Ningum entendeu sua atitude. Os ministros e sbios achavam que o prncipe estava
delirando. Os generais pensaram que ele estava brincando.
       Ento, calmamente, explicou em voz alta:
       -- Para se tornar uma rainha,  preciso cultivar uma flor muito especial: a flor da
transparncia, da cumplicidade, da honestidade diante de si mesma. Sem tal
caracterstica no  possvel amar, governar, liderar, ser fraterno e justo. Todas as
sementes que entreguei a vocs eram estreis e delas no poderia nascer uma flor.
Portanto, a nica pessoa que foi transparente, enfrentou sua vergonha, frustrao,
deboche e provou seu amor incondicional por mim foi a Priscila.
       Em seguida, num momento de rara inspirao, ele completou:
       -- Seu vaso no precisa de flor, pois ela representa a flor que no nasceu.
       Os sbios do reino ficaram boquiabertos, jamais viram tanta sabedoria. Os
ministros, rgidos e interesseiros, ficaram assombrados com a inteligncia de seu rei.
Entenderam que estavam diante de um dos homens mais sublimes que j conheceram.
Os demais presentes, inclusive a maioria das outras pretendentes caram em aplauso.
Aplaudiram a inteligncia do rei e a sensibilidade e transparncia da rainha.
       Priscila foi generosa com quem a maltratou, foi delicada com quem a perseguiu.
Foi digna da coroa que carregava em sua cabea, porque j havia um tesouro em sua
personalidade. Sabia que uma rainha no era mais importante do que um sdito, pois
conhecia a dignidade de cada ser humano.
       Vrios alunos na classe tambm estavam emocionados. Nesse clima de
comoo, a professora Sofia lhes disse:
       -- Nunca se esqueam de que se vocs quiserem brilhar como alunos, como
filhos e, no futuro, como excelentes profissionais e como lderes sociais, precisam
cultivar todos os dias a flor da transparncia.
       A professora pegou um giz, dirigiu-se ao quadro-negro e escreveu:


       Bons alunos escondem certas intenes, mas alunos fascinantes so
transparentes. Eles sabem que quem no  fiel  sua conscincia tem uma dvida
impagvel consigo mesmo. No querem, como alguns polticos, o sucesso a qualquer
preo. S querem o sucesso conquistado com suor, inteligncia e transparncia. Pois
sabem que  melhor a verdade que di do que a mentira que produz falso alvio.


       E completou dizendo que, quem desenvolver o hbito da transparncia, ser um
excelente debatedor de idias, superar a timidez, refinar a sabedoria, influenciar
pessoas, brilhar profissionalmente e mudar os rumos da sociedade. Ainda se alguns
tentarem enterrar suas idias, no se esqueam de que as idias so sementes e o maior
favor que se faz a uma semente  enterr-la.
       Em seguida, num golpe de reflexo, a professora acrescentou que muitos
polticos, empresrios, lderes de instituies esto despreparados para assumir o poder.
Quando assumem o poder se transformam, se tornam orgulhosos, inatingveis,
inacessveis e, diferente de Priscila, negam as suas razes, esquecem de onde vieram.
       -- Quem ama o poder e no o poder de amar no  digno de ser um lder --
finalizou.
       Os alunos ficaram assombrados com essas palavras. Alguns saram atnitos da
escola. Alguns prometeram para si mesmos que com respeito e gentileza jamais se
calariam, seriam debatedores de idias durante toda a sua vida.
       Os anos se passaram e do pequeno grupo saram alguns grandes lderes sociais,
pessoas que lutaram contra injustias, batalharam contra todo tipo de discriminao,
influenciaram pessoas e mudaram os rumos da sociedade.
       PARTE B



                                          Captulo 4




                                                    Bons alunos se preparam para
                                         receber um diploma, alunos fascinantes
                                                              se preparam para a vida.




                                     O espelho do futuro:
                             uma histria que poderia ser a sua


       Ronaldo se julgava o bom do pedao, gostava de controlar a turma. Era
musculoso, achava-se o bonito da classe. Tinha um falar agressivo, no tinha medo de
enfrentar seus colegas e desafiar seus professores. No compreendia que o dilogo era a
arma dos fortes e a agressividade, a ferramenta dos fracos.
       Ronaldo no suportava ser contrariado. Ningum lhe podia apontar um defeito.
Se algum o confrontasse, ele freqentemente resolvia a intriga na brutalidade. O nico
foco de agressividade da escola era produzido por Ronaldo e sua turma. Sua classe era a
mais difcil e resistente. Eles j estavam para terminar o ensino mdio e muitos
tentariam uma faculdade.
       Ronaldo sabia da revoluo que o time de professores liderados pelo professor
Romanov estava fazendo na escola, mas resistia s mudanas. Ele era o aluno de melhor
condio financeira. Como havia sido expulso de vrias escolas por m conduta, como
no havia soluo para ele, fora transferido h dois anos para a famosa Escola dos
Pesadelos.
       O maior erro de Ronaldo era zombar dos alunos mais tmidos. Debochava deles
na frente dos outros colegas, colocava apelidos que os humilhavam. Transformava-os
em palhaos da platia. Havia um colega de classe, chamado Paulo, que era o preferido
para Ronaldo caoar.
       Paulo era calado e gordinho. Quase todos os dias Ronaldo o humilhava. Apesar
dos professores fascinantes, Paulo perdeu o prazer de freqentar as aulas. Sofria
ocultamente pelos cantos da escola e nenhum colega ou professor enxergava sua dor.
       Ao v-lo aproximar-se, Ronaldo se transformava. Gritava bem alto: "L vem o
botijo de gs". s vezes, dava um grito imitando um filhote de elefante. Sua turma se
esborrachava de rir. Tinha esse comportamento longe dos professores, pois sabia que
eles j tinham feito uma campanha contra um tal de fenmeno bullying. Mas como
nunca se ligava em campanhas, nem sabia do que se tratava.
       Pouco a pouco, Paulo perdeu o brilho, no mais sorria, estava angustiado,
deprimido, tinha constantes dores de cabea e gastrite. Alguns alunos mais sensveis
no concordavam com as atitudes de Ronaldo, mas eram dominados por ele. Paulo era
um palhao de um circo do qual nunca quis participar.
       Em alguns momentos, pensava que no mais valia a pena viver. Em outros,
pensava em se vingar de todos os seus agressores. Como seus pais no tinham um
dilogo aberto com ele, no percebiam a sua dor intensa. Paulo dizia apenas que queria
mudar de escola, mas seus pais no permitiam.




                                           O livro!
                           Um amigo que pode mudar uma vida


       Certa vez, o professor Romanov, ao sair da escola, viu Paulo abatido. Tentando
disfarar seus olhos molhados, enxugou o rosto em sua camiseta, mas o professor
percebeu. Chamou-o  parte e perguntou o que se escondia atrs da sua expresso facial.
       -- Se no sou digno que voc se abra comigo, voc tem liberdade de partir --
disse Romanov ao jovem.
       Constrangido e pego de surpresa, pela primeira vez, falou da rejeio que sofria
diariamente na escola e da sua crise depressiva. Disse que estava pensando em dar um
fim na sua vida. Chocado, o professor entendeu que havia um aluno carrasco que no
aprendera minimamente a arte da sensibilidade. Ronaldo no sabia colocar-se no lugar
dos outros nem percebia as conseqncias do seu comportamento.
       Romanov perturbou-se ao saber que, por mais esforo que fizesse, poderia
ocorrer uma tragdia, um suicdio, diante dos seus olhos e dos olhos dos demais
mestres. Colocou as mos nos ombros do seu aluno e pediu para ele no desistir da vida.
       No dia seguinte, deu-lhe um presente: um livro. E, instigando-lhe a inteligncia,
falou-lhe:
       -- Em alguns momentos difceis de nossa vida, um bom livro pode ser nosso
melhor amigo. Voc viaja enquanto l, voc se procura nas linhas dos textos. Um bom
livro pode trazer fora nas dificuldades, coragem na dor e inteligncia nos momentos
em que ningum o compreende.
       Em seguida, afirmou:
       -- Paulo, nossos maiores inimigos no esto no exterior, mas dentro de ns
mesmos. O seu medo, raiva, sentimento de inferioridade e de falta de sentido de vida 
que o corri. No se entregue.
       Aps essas rpidas palavras, o professor saiu. No estava tranqilo.
       O professor encaminhou Paulo para a psicoterapia, mas seus pais no tinham
dinheiro para pagar. O servio pblico de sade oferecia o tratamento gratuito, mas s
no papel, porque na prtica demorava seis meses para se encontrar vaga.
       Paulo pegou o livro. No era algum que amava ler. Mas estava to desesperado
que poderia tentar. O livro se chamava O vendedor de idias. Tratava-se de uma fico
que contava a histria de um personagem chamado Flvio, que outrora fora um
brilhante professor universitrio, que encantava seus alunos, mas um dia sua emoo
passou por um vendaval. Perdeu sua famlia num acidente e desenvolveu uma grave
depresso.
       Flvio no via mais razo para viver, chorava com freqncia, no dormia, no
se alimentava direito, isolava-se de todo inundo, inclusive da sala de aula. Foi
incompreendido, desacreditado e rejeitado. Muitos achavam que ele no se levantaria
mais. Perdeu dinheiro, trabalho e amigos.
       Queria fugir do mundo, mas no conseguia fugir de si mesmo. Pensou em
desistir da vida, mas felizmente no se abandonou. Com ajuda do seu psiquiatra e da
psicloga que o assistiu, procurou encontrar o mais brilhante de todos os endereos, o
endereo dentro de si mesmo. Ao invs de lutar contra a vida, lutou a favor dela.
Batalhou contra os fantasmas da sua mente, gerenciou seus pensamentos negativos e
lentamente superou seu caos emocional.
         Quando superou sua misria emocional, ficou mais rico inferiormente. Votou a
brilhar no pequeno e importantssimo palco da sala de aula. Como professor, tornou-se
um vendedor de idias que estimulava a mente dos seus alunos a voar alto, a no ser
vtima dos seus problemas, crises, humilhaes, sentimentos de inferioridade.
         A leitura do livro comoveu Paulo e o fez identificar-se com alguns aspectos do
personagem. Viu que havia pessoas num estado pior que o dele, mas que ainda assim se
superaram e se tornaram melhores do que eram. Ficou to impressionado com algumas
frases que lera, que as anotou em todos os seus cadernos:


         A grandeza de um ser humano no est no quanto ele sabe, mas no quanto ele
tem conscincia que no sabe. O destino no  freqentemente inevitvel, mas uma
questo de escolha. Quem faz escolha, escreve sua prpria histria, constri seus
prprios caminhos.


         Paulo convenceu-se de que sabia pouco sobre os mistrios da existncia e sobre
a prpria vida. Sentiu que somente enxergando sua pequenez poderia tornar-se um
grande ser humano.
         Comeou a perceber que ele mesmo era seu pior carrasco, que ningum poderia
fazer-lhe mal se ele no permitisse. Precisava fazer escolha, traar seu destino. Foi
apenas o comeo de uma longa e sinuosa estrada que teria de percorrer. Ainda se sentia
humilhado pelos seus colegas e tinha momentos de ataques de raiva, mas que nunca
eram expressos.
         Na semana posterior, o professor Romanov daria uma aula na sala de Paulo.
Queria comentar o drama de Paulo, mas tratar esse assunto diretamente com Ronaldo
era delicado. Se o professor chamasse a ateno de Ronaldo, achava que ele no seria
transparente, negaria tudo o que Paulo havia dito. Portanto, no ajudaria nem um nem
outro. Mas no podia ficar calado. Tinha algo muito importante para dizer a toda a
turma.
         Procurou a melhor forma de introduzir o assunto. Logo aps dar sua aula de
fsica, disse-lhes:
        -- A vida  como o movimento dos planetas, d incontveis voltas. Cuidado,
turma: a pessoa que vocs desprezam hoje poder ser o nico ombro que vocs tero
para chorar um dia.
        Com incrvel maestria, contou-lhes uma encantadora histria que fez todo
mundo refletir sobre seus comportamentos e seu futuro.
        Disse que ser humilhado  uma das experincias mais angustiantes para o ser
humano. Se no for superada, ela se torna inesquecvel e devastadora. Contou uma
marcante histria que ocorreu nos EUA em 1980.
        Havia um jovem cujo nome era David, que morava na periferia de Nova York.
Ele era objeto de deboche, humilhao, de uma pequena gangue constituda de dez
jovens da sua prpria escola. A gangue era liderada por Robert.
        David era retrado, isolado, tinha dificuldade de se enturmar com as garotas. Seu
rosto era cheio de sardas e espinhas. Alguns o apelidaram de "Cratera" e, como tinha
um pssimo desempenho no esporte, Robert o chamava de "desastre ambulante" Dizia
que a melhor maneira de perder num esporte era convid-lo a estar no seu time. Por
duas vezes Robert o esbofeteou. Numa delas, arrancou sangue no canto esquerdo da sua
boca.
        Um dia, ao v-lo passar, Robert colocou sutilmente um dos ps na sua frente e o
fez tropear diante de todos. Os cadernos voaram e ele se esborrachou no cho. Foi um
ato violento, covarde e sem nenhum motivo, apenas pelo prazer de v-lo sofrer.
Ningum o ajudou a se levantar, nem recolheu sequer um de seus cadernos.
        A turma morreu de rir. David levantou-se lentamente. Se reagisse, poderia ser
espancado. Seus lbios se cortaram. Limpou o sangue com sua camisa e manchou-a.
Com lgrimas descendo pelo rosto, olhou para Robert e balbuciou essas palavras:
        -- Espero que, um dia, se voc cair e precisar de mim, eu o ajude a se levantar
-- e em silncio recolheu seus cadernos.
        Robert, querendo sair por cima, rebateu:
        -- Quem  voc para me dar lio de moral, cara! Voc  que tropeou em mim.
Pea desculpa! Seno voc vai ter de me enfrentar.
        Romanov disse que nesse momento Robert e sua gangue se levantaram para
amea-lo. Amedrontado, David abaixou a cabea e disse baixinho:
        -- Desculpa.
        Robert, como se fosse dono do futuro e do mundo, disse autoritariamente:
        -- V se se enxerga! Voc  um pobreto.
         Humilhado e ferido fsica e emocionalmente, David deixou o ambiente. A
condio financeira da famlia de Robert era muito boa. David era pobre, seus pais no
tinham casa prpria e o carro deles era o mais velho dos que apareciam na escola.
         Robert achava que o dinheiro dos seus pais seria inesgotvel. Suas roupas, seus
tnis, seus sapatos, eram sempre de griffe. Era um consumista de primeira. Zombando
de David, dizia que suas roupas eram da marca "MN": Marca Nenhuma.
         Ronaldo se deliciava com a primeira parte da histria. Identificava-se com o
Robert, parecia um heri. No sabia a catstrofe pela qual passaria.




         Seguindo caminhos diferentes


         O mestre da vida, Romanov, continuou a contar a segunda parte da histria.
Aps terminar o ensino mdio, a turma se separou. Cada aluno tomou um rumo. Alguns
foram trabalhar, outros foram fazer faculdades e mudaram de bairro ou de cidade. David
e Robert no se viram mais.
         Robert casou-se, teve dois filhos. Como levava tudo na brincadeira, parou a
faculdade no meio do curso, pediu dinheiro para o pai e montou uma empresa. Achava
que ficaria rico em pouco tempo, pensava que o mundo se submeteria  sua fora.
Grande engano! No sabia trabalhar em equipe, no criava oportunidades, nem pensava
no amanh. S se preocupava com o prazer imediato. Faliu depois de um ano. Perdeu
todo o dinheiro que seu pai lhe dera.
         Em seguida, arrumou um emprego, mas ficou nele menos de um ano. Como no
era gentil, solidrio, teve atritos com alguns funcionrios e, por isso, foi despedido.
Arrumou outro, mas no se dedicava, sentia cime das pessoas, no sabia cooperar com
seus colegas. Depois de seis meses, foi novamente despedido. No parava em emprego
algum.
         Robert pegou dinheiro emprestado dos seus pais, que estavam agora
atravessando uma crise financeira. Resolveu montar outro negcio prprio. Convenceu-
os, dizendo que ficaria rico. Entretanto, mais uma vez, fracassou. Foi vtima de uma
ferida mortal que destri o sucesso de qualquer empresa: no planejou seus gastos e,
alm disso, gastava mais do que ganhava. Um ano e meio depois, Robert faliu de novo.
         Romanov fitou a classe e disse:
        -- Como sempre foi um pssimo aluno na escola da vida, colhia os frutos que
plantou. Nos ltimos tempos, estava desempregado, s fazia servios temporrios aqui e
acol. O Robert autoritrio dos tempos do colgio desapareceu. Andava ansioso,
abatido. Sentia vergonha das pessoas. Atrasava o aluguel da casa.
        Em seguida, continuou dizendo que o dinheiro que ganhava no dava para
sustentar seus filhos. Seus pais o ajudavam, mas eles atravessaram uma crise financeira
e haviam perdido quase tudo. Carro, nem pensar, O seu estava quebrado na garagem
havia meses. No tinha dinheiro para consert-lo.
        Fez entrevistas em vrias empresas na esperana de que alguma o chamasse.
Mas, nada. Um dia, desanimado, leu mais uma vez nos classificados de um jornal que
uma empresa estava contratando novos funcionrios. Mais do que depressa, arrumou-se
e foi at ela.




        O predador encontra a presa


        Romanov comentou que era uma grande empresa. Possua mais de mil
funcionrios. Seu escritrio era enorme. A fachada era de vidro azul espelhado. Suas
salas eram espaosas. Robert ficou encantado. Deixou seu currculo e uma semana aps
foi chamado para a entrevista. Entretanto, havia uma fila enorme de pessoas sendo
entrevistadas. Pensou: "No vou conseguir". Entrou na fila e esperou. Aps seis longas
horas, chegou sua vez.
        Logo antes de ser chamado para a entrevista, viu uma pessoa vindo em sua
direo, cumprimentando a faxineira e o guarda do prdio. Pensou: "Esse coitado pensa
que sendo gentil conseguir um emprego aqui". Distraiu-se um pouco, deu alguns
passos e, sem perceber, virou-se novamente e tropeou justamente na pessoa que fazia
aqueles cumprimentos. Caiu ao cho e a pessoa na qual tropeou pediu desculpas e
gentilmente o levantou.
        Ao se levantar, Robert olhou fixamente para ela. Parecia que a conhecia. Em
seguida, um estalido na memria.
        -- David! Eu no acredito, voc aqui!
        David estava mais magro, bem-arrumado, mas sem exagero. Ao se reconhecer,
abraaram-se. Robert tinha perdido uma boa parte do ar de prepotente devido s
turbulncias que passou na escola da vida. Mas, diante do David, no podia deixar de
tirar uma casquinha. Fez uma pergunta tentando novamente humilh-lo:
       -- E a, David, h quanto tempo voc est na fila? -- perguntou-lhe.
       Humilde, como sempre, David respondeu:
       -- Desde as sete da manh.
       Robert fez os clculos e exclamou:
       -- Caramba! Voc j est h mais tempo do que eu e ainda no foi atendido. --
E, tentando ser superior, disse: -- Talvez seja porque seu currculo no seja bom.
       -- Talvez o seu seja melhor do que o meu -- disse David.
       -- Creio que voc est precisando mais desse emprego do que eu.
       -- Creio que preciso mais dessa empresa do que voc -- falou David com
segurana e bom humor.
       -- Para conseguir um emprego aqui, o cara tem de ser bom. Mas no desanime,
voc pode conseguir -- comentou Robert, querendo mostrar que sua capacidade era
superior  de seu ex-colega de classe.
       -- Voc conhece o dono? Pode falar sobre mim? -- pediu-lhe David, pois havia
vrias vagas na empresa.
       Orgulhoso, Robert lhe disse:
       -- Eu o conheo, mas no sei se posso dar-lhe uma fora. Vou tentar, --
Despediram-se.
       Um dos diretores da empresa, bem vestido, de terno e gravata, observava,
admirado, a conversa dos dois. Quando David se afastou, ele veio lentamente e se
aproximou de Robert:
       -- De onde o senhor conhece o dr. David?
       -- Dr. David? Ah! O David. Era meu colega de colgio. Coitado, era o patinho
feio da classe.
       -- Mas o homem com quem o senhor estava conversando  o dono da empresa.
       -- No, voc est enganado. Ele  um coitado. Est h oito horas na fila
tentando arrumar um emprego.




       A presa encontra o predador


       O funcionrio insiste em dizer que Robert est enganado.
       -- No, ele  o dono da empresa.
       -- No  possvel! Eu o conheo -- disse Robert com ar de deboche.
       -- Qual o nome todo dele? -- perguntou Robert, j com um n na garganta.
       -- David Smith.
       Robert engoliu saliva. Estava incrdulo, paralisado. Seu mundo desmoronou.
Queria estar em qualquer lugar do mundo, mas no naquele local. Lembrou-se da
violncia que praticou contra David e at do sangue que lhe tirou. Comeou a suar frio e
ter taquicardia. Saiu da empresa mudo, desesperado, ansioso. Sentia tontura nas ruas.
Mal conseguia ver os carros.
       Romanov disse que Robert tinha certeza de que no seria ajudado, mas
humilhado. Teve uma longa noite de insnia. Recordava de toda a sua agressividade e
se perturbava. No entendia por que David foi to longe, se tornou to rico, teve tanto
sucesso, e ele s colecionou fracassos.
       No outro dia, recebeu, logo pela manh, um telefonema da empresa. Estava
sendo chamado para uma segunda entrevista. Receoso, dirigiu-se para l. Ao se
apresentar na secretaria, recebeu o recado de que o dr. David queria falar pessoalmente
com ele. Imaginou que o David devolveria toda a agressividade que recebeu. Ao entrar
na sala, estava sem cor, trmulo.
       Ficou impressionado com o tamanho da sala. David pediu gentilmente para ele
se sentar. Robert se afundou na cadeira. David propositadamente manteve o silncio.
No falou nada. Com a voz embargada, Robert iniciou a conversa:
       -- Desculpe-me por tudo que fiz voc sofrer na escola.
       David lembrou-se das ofensas, das chacotas, das rejeies e da vez que Robert
passou-lhe o p e o fez cair diante dos amigos. Agora, as posies se inverteram. Tinha
tudo para humilhar quem sempre o humilhou. A vingana estava em suas mos, mas,
caso se vingasse, no seria diferente dele. Com segurana, disse-lhe:
       -- Tive de aprender a pensar para sobreviver. Vivi longos perodos de dor,
isolamento, lgrimas silenciosas. Mas os sofrimentos que voc e outros colegas me
causaram nutriram minha fora. Tive de ter grandes sonhos para me motivar a superar
os meus conflitos...
       Fez uma pausa prolongada e expressou:
       -- Eu pensei seriamente, dia e noite, em vingar-me de voc e de toda a turma,
mas um dia eu li em um livro que a maior vingana que podemos fazer contra um
inimigo  perdo-lo. Se eu no os perdoasse, vocs viveriam dentro de mim, destruiriam
meu prazer de viver e os meus projetos de vida, por isso h muito tempo eu os perdoei.
Eu entendi que ningum faz os outros infelizes, se primeiramente no for infeliz.
       Robert, que sempre fora uma pedra de gelo, comeou a se emocionar,
       -- No se preocupe, meu amigo! -- disse gentilmente David, percebendo seu
drama. -- Olhei a sua ficha e vi que voc tem dois filhos. Sei que passou por vrias
dificuldades, ficou desempregado um bom tempo e viveu um imenso deserto. Gostaria
de descobrir suas qualidades. Quero dar-lhe uma oportunidade...
       Robert ficou pasmo. A frase que David disse nos tempos de escola foi resgatada
da sua memria e, como um raio, penetrou no palco da sua mente: "Espero que o dia em
que voc cair e precisar de mim, eu o ajude a se levantar!".
       Em seguida, ligou para a sua secretria e pediu para chamar algumas pessoas
que estavam na sala de espera. Eles entraram. Quando Robert os viu, quase desmaiou.
Ficou ofegante, parecia um filme. As trs pessoas que entraram pertenciam ao grupo
que ele liderava. Todos estavam desempregados ou em empregos mal remunerados e
David os empregou e os ajudou um por um. Tornaram-se funcionrios da sua
corporao.
       Os trs colegas sabiam do drama de Robert e comunicaram a David. Orientados
pelo prprio David, eles fizeram chegar sigilosamente a Robert o jornal que anunciava a
contratao de funcionrios para a empresa. Foi assim que todo o episdio se
desenrolou. Aps se abraarem, David dsse a Robert:
       -- Que tal voc trabalhar na rea de recursos humanos? Na rea que, entre
outras coisas, cuida da seleo, treinamento e do bem-estar dos funcionrios.
       Perplexo, Robert comentou:
       -- Trabalhar na rea de recursos humanos? Como poderei cuidar do bem-estar
das pessoas, se no sei elogiar, se sempre fui agressivo, se nunca liderei ningum?
       David, interrompendo a fala de Robert, disse:
       -- Voc maltratou a vida e a vida respondeu maltratando-o. Voc feriu e foi
ferido pela vida. Voc humilhou e foi humilhado por ela. Muitos erram, mas poucos
transformam seus erros em experincia. Levante-se! Lute pelo que voc ama.
       O grande empresrio David, que tinha milhares de funcionrios e no precisava
curvar-se diante de ningum, curvou-se humildemente diante de Robert para resgat-lo
do seu caos.
       Nesse momento, Romanov fez uma pausa na sua histria. Olhou para Ronaldo e
percebeu que nessa terceira parte ele estava profundamente reflexivo. Foi um pequeno
passo, mas importante comeo para que ele tenha chance de sobreviver numa sociedade
que exigia criatividade no lugar da fora, ousadia no lugar da brutalidade, trabalho em
equipe no lugar do individualismo.
       O futuro tem muitos nomes


       Em seguida, Romanov continuou dizendo que Robert se animou. Estava no
fundo do poo, mas David o levantou. A presa valorizou seu predador e o transformou
num ser humano.
       Logo depois, David lhe contou qual foi um dos grandes amigos que mudou sua
vida. Robert comeou a pensar quem seria. David lhe disse:
       -- O livro! -- Robert detestava ler. Em seguida, David completou: -- O livro 
uma das maiores conquistas da humanidade. O livro faz o ofegante respirar, o abatido
animar-se, o pensador encontrar idias. Os livros fazem as crianas terem sabedoria e os
idosos voltar a ser crianas.
       Robert ficou impressionado com a sabedoria de David, no imaginou que ele
fosse to inteligente. Para encoraj-lo ainda mais a mudar a sua histria, David disse-lhe
uma rica e profunda frase do brilhante escritor Victor Hugo:
       -- O futuro tem muitos nomes. Para os fracos,  o inatingvel. Para os
temerosos, o desconhecido. Para os valentes,  a oportunidade... Seja valente, mude o
seu futuro. Agarre essa oportunidade...
       As palavras de David ecoaram dentro de Robert como uma bomba. Ele aceitou o
desafio. Estava impressionado com a fora e a coragem de algum que ele considerava
to tmido e frgil. Agarrou como nunca a oportunidade que seu amigo lhe deu.
       Aquele homem rude comeou a ser lapidado. Aprendeu a ser pequeno para se
tornar grande. Entendeu finalmente que ningum  digno da sabedoria se no usar suas
lgrimas para irrig-la.
       Romanov finalizou a sua histria diante de uma classe completamente
emudecida pelas lies que aprendeu. Antes de sair, escreveu na lousa:


       As pessoas que hoje desprezamos ou fazemos tropear podero um dia ser as
mos que ajudaro a nos levantar.


       Paulo ficou impressionado com a histria que ouviu. A leitura do livro com que
o professor Romanov o presenteou j lhe havia causado grande impacto, agora entendeu
que deveria deixar de ser vtima das agressividades dos seus colegas. Deveria usar as
ofensas para irrigar a sua coragem. A partir da, parou de se deprimir, de se intimidar.
Quando algum o humilhava, ele se protegia, no gravitava na rbita da opinio das
pessoas. No revidava, no agredia, mas traava projetos de vida.
       Por causa dessas atitudes, uma revoluo passo a passo ocorreu em sua vida.
Comeou a ser mais solto e extrovertido. Era um aluno regular, sem expresso, tmido e
inseguro. Mas comeou a fazer perguntas na sala de aula e a debater com os professores
o que no entendia. Todos ficaram impressionados com sua ousadia. At suas notas
melhoraram.
       Paulo entendeu que bons alunos esto na escola para receber um diploma, mas
alunos fascinantes esto para se preparar para a vida. Entendeu que os pais e professores
podiam dar-lhe a caneta e o papel, mas s ele podia escrever a sua histria.
       No outro dia, presenteou Ronaldo com o livro O vendedor de idias e escreveu
uma frase do prprio livro:


       Os frgeis querem controlar as pessoas, os fortes querem controlar o seu
prprio ser. Descubra a sua verdadeira fora.


       Ronaldo agradeceu constrangido. Pela primeira vez, ficou mudo diante de Paulo.
Alguns raios de luz entraram nos becos de sua personalidade diminuindo a sua
arrogncia, mas sua histria ainda era uma incgnita. Ele teria de entender que o destino
freqentemente no  inevitvel, mas uma questo de escolha. E ningum poderia fazer
as correes de suas rotas por ele.


       Chegou o final do ano. A grande maioria dos alunos foi to mudada na sua
maneira de ver a vida e pensar, que a fez uma homenagem aos professores. Esses alunos
encenaram uma pea teatral sobre quem so os profissionais mais importantes da
sociedade. Encerraram a pea dizendo em coro:


       Os professores so to ou mais importantes que os psiquiatras, os juzes e os
generais. Os professores lavram os solos da inteligncia dos jovens para que eles
aprendam a ser pensadores, para que eles no adoeam e sejam tratados pelos
psiquiatras, para que eles no cometam crimes e sejam julgados pelos juzes, para que
eles no faam guerras e sejam comandados por generais.
       Obrigado por transformarem a Escola dos Pesadelos na escola dos sonhos.
Obrigado por nos fazer descobrir que os frgeis usam a fora, os fortes, a
inteligncia, e principalmente obrigado por nos ensinar a nos apaixonar pela vida e
pela humanidade e enxergar que acima de ser negros, brancos, ricos, miserveis,
celebridades, annimos, religiosos e ateus somos seres humanos que devem valorizar
a prpria essncia e respeitar as diferenas. Vocs mudaram nossas mentes, ns
transformaremos o mundo...


       Em seguida, entregaram um carto a cada professor com o texto que recitaram.
Os professores, diante dessa homenagem to linda, se abraaram profundamente
comovidos e extasiados.
       Em seguida, fixaram-se na face do professor Romanov e disseram:


       A escola de Beslan sofreu uma das maiores violncias da histria. Mas o rigor
do inverno fez desabrochar muitas flores, entre elas o professor Romanov. Com ele,
aprendemos que sem dinheiro o ser humano no compra mercadorias, mas sem
educao o ser humano no sabe o seu valor, no sabe que a vida e a sabedoria no
tm preo... Com ele, aprendemos que os professores so os sacerdotes da inteligncia
e a escola  o solo mais sagrado da sociedade, palco solene de paz...


       Romanov agradeceu o imenso carinho. Com a voz pausada, fitou toda a platia
e, como se estivesse fitando todos os professores e jovens do mundo, disse-lhes:
       -- Eu no mereo essa homenagem. Tenho tantas falhas, medos, dificuldades.
Sou apenas um simples mestre que sei que nada sei. Alm disso, algumas pessoas dizem
que falo doidices cientficas e no sei como vocs so malucos de me ouvir.
       A platia sorriu. Realmente Romanov, como todo pensador, no era muito
normal. Nesse momento, levantou a voz e recitou um poema filosfico que estava em
sua mente:


       Somos professores? Muito mais!
       Somos educadores? Mais ainda!
       Somos vendedores de sonhos!
       Vendemos sonhos para o abatido se animar,
       Para o tmido ousar, para o ansioso se tranqilizar,
       Para o poeta se inspirar e para o pensador criticar e criar.
       Sem sonhos, somos servos!
       Sem sonhos, obedecemos ordens!
       Que vocs, alunos, sejam grandes sonhadores!
       E se sonharem, no tenham medo de caminhar!
       E se caminharem, no tenham medo de tropea!
       E se tropearem, no tenham medo de chorar.
       Levantem-se, pois no h caminhos sem acidentes.
       Dem sempre uma nova chance para si mesmos.
       Pois a liberdade s  real se, aps falharmos,
       Existir o direito de recomear...


       A platia aplaudiu com entusiasmo. Em seguida, filou seus colegas professores e
recomendou:
       -- Nunca desistam de um aluno. Se investirmos nos jovens que hoje nos
decepcionam, eles podero no futuro nos surpreender e nos trazer sublimes alegrias...
       Romanov suspirou, enxugou seus olhos, pediu desculpas e saiu antes de a festa
acabar. Tinha de partir para outra escola dos pesadelos. Tinha de provocar a arte de
pensar e fazer muitos outros conhecerem o mundo das idias e dos sonhos.




                                             Fim
